A tradição das Selichot


Acordar cedo ou dormir tarde? O esforço de muitos judeus nesta época do ano para participarem das tradicionais selichot é notável. Sinagogas e batei midrash ficam lotados por um público que espera cerca de onze meses para participar do maior coral de suas kehilot. Não é para menos, a espectativa se dá pelo anseio em escutar as mais lindas rezas e melodias de todo o ano. Neste humilde artigo apresento-lhes um pouco da história dessas rezas maravilhas.

Entende-se por Selichot, que em hebraico significa ‘desculpas’, a coleção de salmos e rezas de arrependimento e pedidos de piedade e perdão a Hashem que as comunidades judaicas se acostumaram a recitá-los desde os dias que antecedem Rosh Hashana até a véspera de Yom Kipur e em dias de jejum. Entre as comunidades sefarditas se acostumou a recitar as selichot desde Rosh Chodesh Elul até Yom Kipur e as comunidades ashkenazitas, por sua vez, desde pelo menos motzei shabat anterior a Rosh Hashana, quando este se dá na segunda ou na terça não restando pelo menos quatro dias de selichot se começa a recitar-las no motzei shabat de duas semanas antes.

As Selichot como elas são hoje não eram conhecidas nos tempos dos Gueonim e muito menos por chazal nos tempos da Guemará. Sua composição foi recebendo a participação de sábios no decorrer dos séculos até se formar o que temos hoje por Seder Haselichot. Embora o Talmud não reconheça tal costume é dele que se aprende que nos dias de jejum se deve fazer confissões de pecados e se arrepender (Mishná Taanit 2:1). Na Guemará em Meguilá 30a se fala de como era a ordem de leitura da Torá nos dias de jejum nos tempos da mishná em que povo pela manhã fazia confissão por seus pecados e rezavam por perdão. Da expressão “metzafra kinufi” (מצפרא כינופיא) explica Rashi que se reunia o povo para avaliar suas ações e saber se tinha pecados em suas mãos afim de que se fosse recebido o jejum nos céus.

O costume de Selichot começa em Babilônia onde é mencionado pelos Gueonim. Rabenu Cohen Tzedek Gaon (século X) refe-se as selichot ao dizer que era “costume nas duas yeshivot (Sura e Pombadita) recitar tachanunim nos dez dias entre Rosh Hashana e Yom Kipur. Se reúnem todos na sinagoga antes do nascer do sol e pedem por misericórdia” (Shut Hagueonim).

Entende-se que originalmente que os dias referentes as Selichot conforme estipulado pelos gueonim era unicamente os dez dias entre Rosh Hashana e Yom Kipur. O último dos Gueonim, Rabenu Haai Gaon (século XI), é específico ao afirmar que os tachanunim se recitam somente nos dez dias, mas que havia escutado “de algumas fontes que fazem desde Rosh Chodesh Elul” (Tur Orach Haim 581).

Entre os Rishonim encontramos machlokot (controvérsias) no que se refere aos dias de selichot. Rabi Itzhak Guiat (século XI) quando diz que “nosso costume é conforme os que consentem a partir de princípios do mês de Elul”. Posteriormente Rambam (século XII) opina segundo o costume dos Gueonim e diz que “se acostumou todos a despertar-se a noite nesses dez dias e rezar tachanunim e súplicas nas sinagogas até o amanhecer” (Leis de Teshuvá 3:4). Poskim ashkenazim reportam a Maharam, Rabi Meir ben Baruch (século XIII) o costume de se recitar Selichot a partir de motzei sabat antes de Rosh Hashana e também o instrui a recitar a noite (Shut Maharil, Bircat Yaakov).

Posteriormente, Rabi Yaakov Ben Asher (século XIV) em sua obra “Baal Haturim”, a qual inspirou a Rabi Yosef Karo a escrever o Beit Yosef, diz que “há aqueles que agregam a recitação das Selichot”. Talvez por antes haver decretado o costume de tocar shofar no mês de Elul com base no midrash Pirkei Derabi Eliezer não quisesse Baal Hatur trazer logo em seguida a obrigatoriedade de um outro costume sem uma referência tanaítica; preferiu referendar-se nos Gueonim. Contudo a discussão entre os Rishonim é entendida por ele e define o costume das Selichot para sefaradim conforme Rabi Itzhak Guiat (desde Elul) e para ashkenazim conforme Maharam (uma semana antes). A partir daí os legisladores posteriores tomam sua referência para decretarem sobre o costume. A exemplo é Rabi Yosef Karo (século XIV) que embora no Beit Yosef não fez qualquer menção ao costume das Selichot as legisla no Shulchan Aruch que “se acostuma a despertar-se pela madrugada para recitar selichot e tachanunim desde Rosh Chodesh Elul até Yom Kipur” (Orach Haim 581:1).

A primeira versão das Selichot que se tem conhecimento é a que figura no Sidur Seder Amram, escrito por Rabenu Amram Gaon (século IX). Conta-se que esse sidur foi encomendado pela kehilá de Barcelona ao Gaon em Babilônia. Este sidur se dufundio por toda a Europa e com o passar dos séculos foi sendo adaptado até chegar as versões de sidurim que temos hoje. As selichot eram divididas em dias, sendo uma liturgia por dia. A versão que tive acesso apresentava 15 dias, não sei informar se a partir do dia 16 se repetia desde o primeiro dia ou se no sidur faltavam os demais dias. O que é interessante é que no 15º dia a liturgia é bem conhecida em nossos dias, como por exemplo o texto de “Rachamana … bedil vaia’vor”.

Com o passar do tempo as versões foram sendo adaptadas e com a difusão da Kabalá novas rezas foram acrescentadas nas selichot. Atualmente as selichot são basicamente iguais entre sefaradim e ashkenazim. Elas receberam composições e apontamentos tendo novas versões e adaptações entre versões distintas como: Arizal, Chida, Livorno, Ashkenaz, Lituano, Sefard, Abram Kahan etc.

Agora sabemos que quando recitamos as selichot não apenas estamos manifestando nossa emuná particular mas sim a de todo povo judeu de todas as gerações que nos antecederam. A reza é a maior conexão histórica com nossos valores nacionais. Que Hashem possa abrir nossa boca para que entoemos seus louvores. Felicidades e válidos dias de arrependimento para todos.

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Categorias:emuná, Festas, Leis de Teshuvá

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