Regressando ao que somos em essência


Desde o dia de Rosh Hashaná contamos 10 dias até a chegada de Yom Kipur, o sublime dia do perdão. Até lá nos resta um curto período de tempo para nos preparar. Nesses dez dias nos dedicamos a fazer Teshuvá, a fim de que estemos íntegros no grande dia de Kipur.
Teshuvá, תְשׁוּבָה, palavra que escutamos com muita frequência principalmente desde Rosh Chodesh Elul. Com o intuito de expressar amplamente seu significado a traduzem comumente como arrependimento, porém seu significado não é este, embora que seja o ato protagonista dentro do processo. Teshuvá significa voltar-se para onde se estava originalmente. Teshuvá é regressar ao que somos em essência; voltar a ocupar a posição para a qual fomos criados.
Infelizmente nós vemos e definimos nossos semelhantes por suas ações. É certo que as ações falam muito sobre alguém, porém necessariamente elas falam sobre “alguém que é” ou sobre “alguém que está”? Não podemos ver a essência do ser humano porque está coberta por suas ações. Quando nos desviamos dos desígnios divinos nos metemos em baixo de camadas e mais camadas a fim de nos esconder, como aconteceu com a Adam no Éden que depois de comer do fruto proibido se cobriu com folha de figueira e como se não bastasse se escondeu dentro da árvore (Bereshit 3:7,8). E esta é a reação do homem até os dias de hoje.
Hashem nos conhece por nossa alma e não por nossas más ações, embora que as vê. E nos chama a regressarmos de nossa rebeldia como traz Yermiahu 3:22: “שׁוּבוּ בָּנִים שׁוֹבָבִים אֶרְפָּה מְשׁוּבֹתֵיכֶם” (regressem filhos rebeldes de vossa rebeldia). Porque mesmo que Hashem use de duras palavras, estas são para nos alertar da condição tão baixa que nos encontramos, pois não são pelas más ações que Hashem nos reconhece, mas sim pelas boas, como diz o salmo 31:8 “יָדַעְתָּ בְּצָרֹות נַפְשִׁי ” (na aflição conheceste minha alma). E nos chama de regresso ao nosso lugar de guardião da Torá, povo santo e sacerdotal eleito para tal mesmo antes de sua formação, como nos traz Bereshit 18:19 “אֲשֶׁר יְצַוֶּה אֶת בָּנָיו וְאֶת בֵּיתוֹ אַחֲרָיו וְשָׁמְרוּ דֶּרֶךְ יי לַעֲשׂוֹת צְדָקָה וּמִשְׁפָּט” (há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para agir com justiça e juízo).
O homem sempre está nesse caminho de idas e vindas, altos e baixos. Aquele que busca se manter segundo a vontade divina, cumprindo o que traz Pirkei Avot 2:4, este será chamado de Tzadik (justo). Aquele que se desvia dos caminhos divinos e atende a suas próprias vontades e desejos, este é Rash’a (perverso). Em Rosh Hashaná as ações são medidas a fim de dar a cada um segundo a maioria delas. Aquele que no resultado das contas divinas apresenta como tendo mais mitzvot e boas ações será chamado de Tzadik e será recompensado com a vida. Aquele que tem mais pecados e más ações será chamado de Rash’a e será recompensado com a morte.

“וְאֶת־הָאָרֶץ הַחַיִּים וְהַמָּוֶת נָתַתִּי לְפָנֶיךָ הַבְּרָכָה וְהַקְּלָלָה וּבָחַרְתָּ בַּחַיִּים לְמַעַן תִּחְיֶה אַתָּה וְזַרְעֶךָ”

“Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência” Devarim 30:19

As contas divinas não estão no nosso alcance, não temos como saber ao certo quanto vale cada ação, seja ela boa ou má; como nos traz Kohelet 9:18 “וְחוֹטֶא אֶחָד יְאַבֵּד טוֹבָה הַרְבֵּה” (e um pecado se põe a perde muitas bondades). Dessa forma devemos sempre nos considerar como “Beinoniim”, medianos, de forma que temos boas e más ações. Porém a Torá nos traz um mandamento que supera todas as contas e todas as ações:

“כִּי הַמִּצְוָה הַזֹּאת אֲשֶׁר אָנֹכִי מְצַוְּךָ הַיֹּום לֹא־נִפְלֵאת הִוא מִמְּךָ וְלֹא רְחֹקָה הִוא… כִּי־קָרֹוב אֵלֶיךָ הַדָּבָר מְאֹד בְּפִיךָ וּבִֽלְבָבְךָ לַעֲשֹׂות”

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto, e tampouco está longe de ti… Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca, e no teu coração, para a cumprires. Devarim 30:11,14

Esta é a mitzvá de fazer Teshuvá, “regressar a Hashem e escutar sua voz” (Sefer Hamitzvot Hakatan 53). Explica Nachmanides: “regressar o seu coração e voltar a Hashem Elokeicha”. Explica Rambam (Leis de Teshuvá 1) que fazendo confissão de pecados e não voltar a cometê-los.

Estes dez dias desde Rosh Hashaná (quando fomos julgados) até Yom Kipur (quando seremos selados) são os dias propícios para que regressemos a Hashem, nos arrependamos de nossos erros e busquemos aumentar o volume de nossas boas ações e mitzvot. Rambam nos ensina isso:

“E cada um deixará seu mau caminho e seus maus pensamentos. E que todos se vejam a si mesmos no decorrer te todo o ano como estando metade merecedor da vida e metade passivo de pena… E de acordo com tudo isso, todo Israel se acostumou aumentar em tzedaká (doações aos necessitados) e bons atos, e se ocupar de cumprir as mitzvot desde Rosh Hashaná até Yom Kipur mais do que todo o ano. E se acostumaram todos a despertar-se à noite nestes dez dias e rezar na sinagoga com palavras de contrição e arrependimento até o amanhecer” (Leis de Teshuvá 3:4)

Cabe aqui perguntar: aquele que todo o ano nunca se importou com nada ao chegar Asarat Yamei Teshuvá se comporta como um tzadik é válido? Não seria isso falsidade? Sim pode parecer falsidade, ou de fato o seja; por outro lado devemos nos recordar que a Teshuvá é regressar ao que somos e para nossa função. Se a pessoa decide nesses dias cumprir as mitzvot como elas são, então sim está fazendo Teshuvá. Contudo este não é o nível mais alto e puro da Teshuvá. Explicam os sábios em Yomá 86b que aquele que faz Teshuvá com AMOR todos os seus pecados serão convertidos em bons atos (ou seja, passarão para o outro lado da balança).

Devemos aproveitar esses dias para nos dedicar ao máximo. A pedir perdão àqueles que ofendemos ou que ficamos em dívida por nossos maus atos. Pedir perdão àqueles que fizemos Lashon Hará ou qualquer que seja o mal. Devemos nos dedicar ao cumprimento das mitzvot e rezar com maior fervor. AMAR a Torá e a toda a criatura. Dar tzedaká para o pobre e financiar o estudo da Torá.

Que possamos alcançar o nível de Teshuvá completa no qual nem mesmo o maior Tzadik pode alcançar (Sanhedrin 99a).

Gamar Chatima Tová vekatevu besefer hachaim.

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Categorias:emuná, Leis de Teshuvá

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2 replies

  1. Shalom Kaleb !! A Teshuvá significa voltar ao estado de Adão antes do pecado ? ou voltar as práticas da Torá?

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    • Shalom Marcos,
      Teshuvá significa primeiramente voltar à prática da Torá. O estado de Adão (Adam Harishon) está composto basicamente de duas partes: 1 – concordância com a vontade divina e 2 – nível de profecia. Quando se faz Teshuvá e cumpre a Torá como devido alcança-se a primeira parte. Já a segunda, por sua vez, somente será possível no Olam Habá (mundo vindouro)

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