Poderia um não judeu servir a D’us?


Termina-se a leitura de Sefer Bereshit e aprendemos muito com a devoção e a fé dos patriarcas. Vimos que a base de lapidação de caráter entre os patriarcas se formam as bases do povo Hebreo. No próximo livro, Sefer Shemot, veremos como o povo em si também teve que lapidar sua fé e seu caráter para receber a Torá e ir rumo à Terra Prometida e como isso reflete nas gerações futuras.

Porém de agora a diante vemos que a Torá concentra os fatos em torno de Am Israel e fica-se a pergunta: onde está o papel dos demais povos perante a Torá? Poderia um não judeu servir a D’us? Tentarei responder a esta questão e espero que Hashem me ajude! Pois o tema se torna complicado não por sua essência, mas porque geralmente as pessoas (judeus e não judeus) dedicam-se a estudar o superficial deixando de se aprofundar no que é mais importante e no que motiva o cumprimento do propósito de toda a Torá: a emuná (fé).

A falta desse conhecimento tem fomentado distorções para os dois lados. Temos judeus querendo assumir uma religiosidade similar a do não judeu ausente de Torá alegando ser esta a forma em que se deve servir a D’us sendo luz NAS nações. Em contra partida há não judeus que assumem um religiosidade judaica cumprindo mandamentos dos quais não estão obrigado alegando uma conecxão ao povo eleito para ser luz PARA as nações. Nesta oportunidade estarei falando para os não judeus, haja vista que temos muitas outras oportunidades para tratar do caso dos judeus.

Para começarmos a entender como o homem pode servir a D’us temos que primeiro entender o próprio homem. Devemos buscar conhecer a nós mesmos dentro da perspectiva da Torá e da sabedoria judaica para que possamos entender qual nossa função aqui.

O homem foi o último ser criado, mas nem por isso é o menos importante. No ato da criação se revela qual o seu propósito: “domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” (Bereshit 1:26). Recai sobre o homem o domínio sobre toda a existência dentro do planeta. Porém este é justamente a visão mais superficial da elevação do homem em relação a toda a criação.

Toda a criação tem sua essência e sua forma. A forma se constitui da matéria que lhe dá um corpo. Mas em si, sua essência é o que lhe dá seu significado e suas propriedades. Ambos, forma e essência, vão juntos e inseparáveis pelo menos nas existências mais primárias. De modo que um diamante só mantém sua propriedade quando seu corpo mantém sua forma. Ao mudar a estrutura atômica o diamante pode se transformar em grafite assumindo uma outra propriedade.

No caso dos animais a essência não habita no corpo em si, mas na vida que carregam. O corpo não precisa perder sua forma para que as propriedades e tudo o que elas representam em um ser vivo se percam. Ainda que o corpo mantenha sua forma ao perder sua essência, a vida, já não há mais sentido para tal ser.

O ser humano, diferente dos demais seres vivos, não tem sua essência na vida. Não é a vida e o corpo animado que o define e o diferencia dos demais animais. Um homem que mantenha seu corpo com vida, mas perde por completo sua razão e sua consciência ele está destituído de sua característica primária, falta sua racionalidade. Então poderia se perguntar: nesta linha de pensamento seria permitida a eutanásia a uma pessoa em estado vegetativo? A resposta é não e explico a seguir.

No relato da criação o homem tem sua forma moldada na terra, mas diferente dos demais animais ele não saiu andando depois de formado. Isso não ocorreu porque àquela forma material seria dada uma semelhança divina a qual o texto chama de imagem de D’us. Rambam entende que esta imagem é uma semelhança com o criador e busca dentro das características divinas qual poderia ser aplicada tanto ao homem como a Hashem sem limitar o criador e sem divinizar a criatura. Assim sendo, toda semelhança física, direta ou indiretamente, é descartada pois se relaciona com a matéria e esta é limitada não sendo aplicada a D’us que está além do plano físico. Não pode se referir a uma semelhança moral, sugerida por alguns teólogos, pois a moralidade depende de um contexto social e é mutável segundo tendências e épocas. Também não se pode aplicar a noções de valores como amor, justiça, misericórdia etc. pois também dependem da orientação social e individual não sendo algo que se pode dizer que todo ser humano em estado normal tenha em mesmo potencial.

Esta semelhança é a consciência. Destituída de matéria e presente naturalmente no ser humano ela é quem permite ao homem adquirir conhecimento e evoluir. A finalidade da evolução é de alcançar o objetivo final.

Muitos acham que o objetivo final é o paraíso, o Gan Éden. O Gan Éden foi um exemplo do nível espiritual que a humanidade pode ultrapassar. O mundo vindouro esperado pelos judeus não é um jardim florido onde se come e bebe e vive cantando e batendo asas. O mundo vindouro, explica Rambam, é a conexão do homem com seu criador. O homem se une a consciência divina. Isso é o que significa ” e o espírito volte a Deus, que o deu” Kohelet 12:7. O relato do Gan Éden não é feito com Yaakov, pai unicamente do povo Hebreo, mas com Adam Harishon, pai da humanidade. Isso nos deixa claro que o Mundo Vindouro está para todos.

Porém há uma forma de conquistar o mundo vindouro, e é aqui onde muitos não entendem. Segundo Rambam o mundo vindouro é dado para aqueles lapidaram sua consciência adquirindo o conhecimento da verdade. Mas isso não significa que é meramente estudando, como ensinavam os filósofos. Claro que defende Rambam que por meio do estudo das ciências naturais o homem tem conhecimento de como funciona o mundo e por sua vez tem conhecimento do Criador o que o conecta com Ele e o aproxima do mundo vindouro por estreitar sua relação com Hashem. Mas veja, é o estreitamento da relação com Hashem que conecta o homem a Ele. O estreitamento da relação do homem com Hashem se pode chamar de santidade. Cada vez que o homem mais se aproxima de D’us ele se santifica.

Assim sendo, toda a humanidade tem consciência de sua existência pois são imagem de D’us, então já temos aqui um grau de santidade. Destes há os que se elevaram no conhecimento e reconhecem que há um ser maior que provê tudo; já se tem outro grau de santidade. Destes há os que creem em um só D’us; já temos mais santidade. Assim vai seguindo até que encontramos a figura do Bnei Noach que são os santos entre as nações os quais creem em D’us em sua revelação verdadeira que é a Torá.

Então vem alguém e diz: Ahhh mas o Bnei Noach está em menor santidade que o judeu! Em verdade sim, pois a santidade se distingue pelo esforço desprendido para alcança-la e mantê-la. Mas não está vetada a possibilidade de um Bnei Noach seguir evoluindo e se converter ao judaísmo. Mas não é tão certo de que um Bnei Noach fiel e temente a D’us seja esteja em menor posição no ranking celestial do que um judeu que não cumpre mitzvá. Só porque o camarada é judeu? Segundo a Halachá um judeu que deliberadamente e conscientemente descumpre um mandamento não tem parte no mundo vindouro. Isso é suficiente para entender que o fato de ser judeu não coloca ninguém em grau maior.

O judaísmo não é um sistema religioso proselitista no sentido de que vise que todos tenham que se converter e se igualar ao “status” judeu. Por outro lado, sim é proselitista por pregar que todos povos devem crer em um único D’us e guardar determinadas leis. As sete “leis dos filhos de Noach” são mandamentos que, segundo o judaísmo, estão obrigados todos os povos da Terra. Aprende-se do livro de Bereshit (Gênesis) segundo o diálogo entre Hashem e Noach após atracar sua arca no monte Ararat. Mas como mandamentos se aprende do midrash Bereshit Rabá de onde foram recebidos pelos sábios através de Moshe Rabenu e transmitidos por gerações e discutidos no Talmud (Sanhedrin 56a). Portando, e para que fique claro, as Sete Leis dos Filhos de Noach são Torat Moshe miSinai de igual valor com as 613 mitzvot da Torá, ou melhor dizendo, 606, pois a estas mesmas 7 leis o povo judeu também está obrigado.

As sete leis são extraídas de versículos bíblicos de onde se aprende um conceito para a mitzvá. Vejamos como nos traz o midrash, Bereshit Rabá 16:6:

Versículo   Mandamento
E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás

Gênesis 2:16

1 Idolatria – a somente Hashem servir
E aquele que blasfemar o nome do Senhor, certamente morrerá

Levítico 24:16

2 Não blasfemar contra Hashem
A Elohim (juízes) não amaldiçoarás

Êxodo 22:28

3 Estabelecer juízes
derramar o sangue do homem

Gênesis 9:6

4 Não assassinar
Eles dizem: Se um homem despedir sua mulher

Jeremias 3:1

5 Não praticar relações sexuais ilícitas
De toda a árvore do jardim comerás

Gênesis 2:16

6 Não roubar
A carne, porém, com sua vida não comereis.

Gênesis 9:4

7 Não comer órgãos de animais ainda vivos.

 

As Sete Leis dos filhos de Nocah são as chaves que permitem que qualquer pessoa mesmo não sendo judia possa viver na Terra de Israel, até mesmo adquirindo terras, e ser recompensada com uma parte no Mundo Vindouro. Em outras palavras, um bnei Noach (ou Noahide) por reconhecer Hashem como único D’us compartilha das três coisas mais importante para o povo judeu: a Terra, a Torá e o Mundo Vindouro.

O povo judeu recebeu mandamentos específicos (613 da Torá e mais 20.000 leis dos sábios) para cumprir seu papel como povo sacerdotal. Assim como dentro do povo judeu também há graus de santidade onde o levita é mais santo que o israelita e os sacerdotes são mais santos que que os levitas e o sumo-sacerdote é o mais santo dos homens; quanto maior a santidade mais mandamentos tem que cumprir.

A soma de todos esses mandamentos tanto para o povo judeu como as 7 leis de Noach servem para cumprir dois objetivos: corrigir o corpo (a relação entre os homens e a sanidade social) e corrigir a alma (através do conhecimento da verdade). A correção do corpo vem primeiro pois com uma sociedade sadia é possível se dedicar ao estudo da Torá como devido. As leis de Noach assumem o mesmo papel dentro das nações.

Para finalizar trago aqui algo muito bonito que escreveu Rambam e mostra o quanto uma pessoa mesmo não judia que se dedica a Hashem tem o mesmo valor dos levitas sem ter que assumir mandamentos aos quais não estão obrigados. Ao se referir que a tribo de Levi não tem terras em Israel e nem está obrigada a ir à guerra por serem soldados de Hashem e que seu dever é ensinar Torá, assim diz Rambam:

“E não apenas a tribo de Levi, mas qualquer homem de qualquer lugar do mundo que tenha comprometido sua alma e que concebido em sua consciência de se separar para estar ante Hashem a seu serviço, conhecendo a Hashem e seguindo o caminho reto (correto) conforme a vontade divina, e que carga sobre seus ombros a responsabilidade sobre os demais a qual foi dada aos homens. Dessa forma se santifica como Santo dos Santos e será Hashem sua porção e sua herança para sempre. E será merecedor neste mundo do que lhe for suficiente como são merecedores os levitas e os sacerdotes. Como disse David, sobre ele a paz: ” O Senhor é a porção da minha herança e do meu cálice; tu sustentas a minha sorte” (Tehilin 16:5).

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