Exegese vs Tradição Part 1


O site Observador publicou uma matéria sobre Mauro Biglino, estudioso da Bíblia e que por muitos anos foi tradutor de Hebraico para as Edições São Paulo (Edizioni San Paolo), principal editorial da Igreja Católica. Acompanhe o artigo aqui: http://observador.pt/2017/01/24/antigo-tradutor-do-hebraico-original-diz-que-a-biblia-nao-fala-de-deus/

A questão é que Biglino em seu livro La Bibbia non parla di Dio, Editora Mondadori, alega que a tradução do Tanach do hebraico para demais idiomas atende uma necessidade teológica e não é necessariamente uma tradução fiel do texto. A exemplo disso, alega Biglino, fala-se muito de “deus” mas a Bíblia não fala de “deus” até porque este termo não existe em hebraico. Diz Biglio que quando se encontra a termo “deus” nos escritos do Tanach se trata de uma inserção teológica e não de uma tradução. Bem como não teria o termo “eternidade”, pois o qual também teria sido inserido pela teologia com base na filosofia platônica. Também menciona o termo “bará” (ברא) e diz que este não tem o significado de criar do nada, também seria mais um conceito teológico aplicado aos verbetes em hebraico.

Em resumo, Biglino toma o desafio de entender o Tanach a partir de sua tradução literal e/ou correspondente com os sinônimos encontrados na língua hebraica antiga colocando a parte toda e qualquer interpretação teológica. Dessa forma ele chega a conclusões como: o mundo não foi criado, a eternidade na verdade é um largo período de tempo dentro do tempo, porém finita; menção de deuses e dentre deles se destaca o que vem a ser o D’us dos hebreus; a unidade como tal não existe, etc.

O que tenho a dizer é que, de certo ponto, Mauro Biglino está correto em suas afirmações. Além do mais enfatizo que ele está correto em todas as suas afirmações, inclusive as que ele ainda não pronunciou. Agora me explico.

Em letras garrafais quero deixar claro que É IMPOSSÍVEL ENTENDER A TORÁ ESCRITA SEM A TORÁ ORAL. A partir do momento que Biglino, e qualquer outra pessoa, invalida a Torá Oral na interpretação da Torá o resultado é claro: textos contraditórios, anulação da divindade dos escritos, anulação de D’us etc. A Torá deixa de ser um livro profético e manual de transformação de vidas para ser uma ferramenta para o comércio de livros. Somente a leitura textual sem a compreensão subjetiva ensinada pelos sábios judeus se entende a Torá de qualquer forma que quiser (ou não a entende), menos segundo a tradição e pensamento judaicos.

Vamos tomar como exemplo alguns pasukim (versículos) do primeiro capítulo do primeiro livro da Torá e traduzi-los literalmente desconsiderando a tradição:

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ׃

No princípio produzi deuses os lugares além e a terra

וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים יְהִי רָקִיעַ בְּתֹוךְ הַמָּיִם וִיהִי מַבְדִּיל בֵּין מַיִם לָמָיִם׃

E disse os deuses seja o céu (espaço de ar) dentro da água e separe entre águas e águas

וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים נַֽעֲשֶׂה אָדָם בְּצַלְמֵנוּ כִּדְמוּתֵנוּ

E disseram os deuses façamos o homem à nossa imagem conforme nossa semelhança

Já vemos através desses três exemplos uma distorção drástica da versão que estamos acostumados. E ainda fica pior quando eu disser que para eliminar completamente a tradição deve-se também eliminar os “pontos massoréticos”. Se assim o fazemos como saberíamos se o sentido do primeiro versículo seria “no princípio” ou “no principal”? Portanto, quando Bilgino diz que a Torá relata a existência de mais de um “deus” ele está certo, pois se retiramos a tradição oral é justamente isso que se lê e se entende.

“Moshê recebeu a Torá no Sinai e a transmitiu a Yehoshua; Yehoshua aos Anciãos; os Anciãos aos profetas; e os Profetas transmitiram-na aos Homens da Grande Assembléia” Pirkei Avot 1:1

A Torá Oral foi recebida antes mesmo da Torá escrita, pois quando os israelitas foram ordenados sobre Pessach ainda estando no Egito ainda não se tinha nada escrito. Contudo, como a obrigatoriedade real com os mandamentos começa com o evento da entrega da Torá no Monte Sinai, foi-se ensinado que daí se recebeu tanto a Torá Escrita como a Torá Oral.

O povo de Israel passou quarenta anos no deserto estudando a Torá Oral. Este conhecimento foi transmitido de Moshe aos sacerdotes, membros da Grande Assembleia e ao povo. Durante todo esse período o povo estudou apenas a Torá Oral. Somente nos últimos dias de sua vida foi que Moshe completou a escrita da Torá entregando uma cópia a cada tribo[1]. “Saiba que todo mandamento que entregou o Santo, abençoado seja, a Moshe Rabenu, sobre ele a paz, o deu com sua explicação”[2]. Embora mencione mandamentos, entende-se que também as explicações da Torá e sua interpretação foram dadas a Moshe, de tal forma que nenhum profeta pode fazer mudanças[3]. Tanto a Torá como sua explicação possuem a mesma santidade.

Mesmo depois da Torá ser escrita e entregue aos anciãos e as tribos e desde então ser recopilada, os ensinamentos das explicações dessa Torá eram transmitidos oralmente de tribunal a tribunal, mestre a aluno geração pós geração. Cada aluno ao receber de seu mestre fazia suas anotações e as guardava, uma vez alcançando a permissão para ensinar revisava seus escritos e transmitia o conhecimento novamente de forma oral. Entende-se por Torá Oral todo o ensinamento transmitido desde Moshe Rabenu, somadas as discussões e os novos decretos e conceitos[4] até os dias de Rabi Yehudá Hanasi (século I da era comum), quando se juntam a maior quantidade de ensinamentos possíveis e os escreve organizando por temas, o que deu origem ao Shas (Shishá Sidrei Mishná), os seis tomos da Mishná. Outros ensinamentos foram encontrados depois de se estabelecer o Shas, os chamados baraita, adicionados nos comentários do Shas conhecidos como Guemará.

No processo de transmissão da Torá Oral foi inevitável de que entre o conteúdo dado, entendido e escrito não houvesse distorções. Isso fez com que a Torá Oral fosse dividida em duas: Torat Moshe Misinai e Massóret (tradição). A primeira se refere aos ensinamentos que não sofreram distorções no processo da transmissão. A massóret, por sua vez, trata-se de todas as explicações que padecem de divergências entre os sábios. O resultado disse é que quando se tratando de Torat Moshe Misinai a questão é indiscutível, porém, no que se refere a massóret o Sanhedrin (Grande Tribunal Rabínico) teria que decidir qual versão seria tomada como normativa.

Uma vez entendido o que é a Torá Oral já nos fica mais claro sua validade e autoridade para definir os conceitos interpretativos do Texto da Torá. A Torá escrito estaria para a Torá Oral assim como o resumo está para a obra principal. Dessa forma os passukim da Torá nos reportam ao leque de conceitos legais e exegéticos verdadeiros que correspondem ao texto. Uma vez que cada pasuk nos guia aos valores da fé judaica não estão abertas todas as possibilidades de interpretação, pois dessa forma se perderia o caminho que nos leva às explicações de Moshe Rabenu.

Ficamos por aqui e no próximo artigo veremos quais são as técnicas de se entender o texto da Torá.

Continua….

 

[1] Devarim 31:9

[2] Introdução à Explicação da Mishná 1

[3] Introdução à Esplicação da Mishná 2; Yesodei Hatorá 9:1

[4] Introdução ao Mishne Torá

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Categorias:Curiosidades, Leis, Tora Oral

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6 replies

  1. Sem o Talmud não se tem entendimento da Torá.

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  2. Rav Kaleb, excelente texto! Gosto muito de suas explicações e da maneira como elucida o assunto. Aguardando ansiosamente pela segunda parte!

    Liked by 1 person

  3. Shalom!
    Qual livro posso adquirir para iniciar os estudos da Tora Oral?

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