Exegese vs Tradição Part 2


Depois que tratamos um pouco da importância da Torá Oral para o entendimento da Torá Escrita alguém pode se perguntar: “ora, se a Torá Oral é tão importante e imprescindível então por que Hashem deu a Tora Escrita? Que ficássemos somente com a Torá Oral”. Como resposta transcrevo aqui o que escutei em aula do Rav David Landau[1]: “Hakadosh, Baruch Hu, entregou a Torá Oral a Am Israel, mas por amá-lo também estregou a Torá Escrita para que tivesse algo nas mãos de onde posse ler”. Algo material teria que estar neste mundo para que sempre nos lembrasse o imaterial a que pertence.

Assim como com o passar do tempo a Torá Oral perdeu um pouco de seu conteúdo fiel da mesma forma a Torá Escrita é passível de perdas. No cuidado de evitá-las foi estabelecido que a Torá deveria ser recopilada fielmente pelo método leitura-escrita, ser proibido transmiti-la oralmente e que se deve interpreta-la segundo regras específicas. Esta foi a forma de se criar uma proteção ao conteúdo da Torá, seria como os direitos autorais divino.

Com tanta regra parece impossível simplesmente abrir o Tanach e ler. Mas não é bem assim. Embora tenhamos falado sobre os riscos de uma leitura e entendimento meramente exegético, o que falamos é quando se o faz independente da tradição. Hoje é muito mais fácil e acessível entender o Tanach pois há anos estão disponíveis no mercado traduções supervisionadas por rabinos que nos permite o conhecimento e o entendimento do texto sagrado segundo a tradição da Torá Oral em sua versão mais simples. Quero dizer com isso que além das versões que encontramos em português, que de forma geral seguem os comentários de Rahi, há outros comentaristas que tiveram outras compreensões do texto também se baseando na Torá Oral.

O primeiro passo para a compreensão do texto é o uso das ferramentas do idioma. Quem não possui hebraico suficiente para se debruçar sobre os livros e entender seu conteúdo tem dois caminhos a tomar: 1 – fazer um curso de hebraico ou 2 – estudar a partir de versões bíblicas autorizadas. Há que conhecer o idioma da Torá que é diferente do hebraico moderno. Lashon Hamikrá é nome que se dá em hebraico para o “hebraico bíblico”. À primeira vista é semelhante ao hebraico moderno mas possui regras e irregularidades próprias as quais são desconhecidas no hebraico moderno. Ou seja, uma pessoa que tenha estudado lashon hamikrá ao arriscar uma conversa com um israelense será, ao menos, uma cena engraçada.

 

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Veja a Primeira Parte da Série

 

As ferramentas do hebraico bíblico são diversas, tais como:

Verbos: repartidos em sete modos (pa’al, nif’al, hif’il, huf’al, pi’el, pu’al e hitpa’el) e três tempos (passado, presente e futuro)

Vogais: que não apenas auxiliam para a pronuncia correta (kametz, patach, tsere, hirik, segol, sheva, holem, shurek, kibutz e suas variações) mas também auxiliam para identificar palavras distinguindo-as entre um verbo e um substantivo quando escritos exatamente igual, por exemplo.

Imperativos: que tanto podem se apresentar em forma completa, através do verbo conjugado no tempo futuro, ou em sua forma contraída.

Vav Hameapech: a letra “vav” (ו) que geralmente tem a função de conjunção somando conceitos ou expressando uma sequência de ações, também pode vir como modo de inversão do tempo verbal dando sentido oposto ao tempo efetivamente escrito do verbo.

Palavra conjunta: união de duas palavras para se dar um sentido próprio, entre outas ferramentas.

O conhecimento gramatical nos permite, na maioria das vezes, o entendimento básico do texto como ele é. Porém somente a gramática não nos beneficia com um conhecimento profundo uma vez que as palavras podem ter múltiplos significados e aplicações. Sendo assim conhecer o significado das palavras e sua raiz nos permite expandir as possibilidades de compreensão.

A exemplo tomemos o pasuk de Bereshit 1:27

bereshit-127

Encontramos o verbo “bará” em dois tempos. No primeiro caso está no futuro, mas ao ser precedido pelo “Vav Hameapech” seu sentido passa a ser no tempo passado. Outras duas vezes se aparece o mesmo verbo no tempo passado sem o “Vav Hameapech” mantendo seu tempo no passado.

A palavra Tzelem nos reporta, em primeira instância, ao entendimento de forma física. Pois Tzelem é imagem, semelhança de algo. Mas dessa forma se estaria dizendo não apenas que o homem é semelhante a D’us mas também que Ele tem forma humana. Porém, vemos em outros lugares o uso de outra palavra para expressar a forma física: toar (תואר)[2] (Bereshit 37:6; Shmuel 1 28:14, etc).

A busca de se entender a Torá segundo a gramática e o significado real dos termos é chamada de Pshat (פשט). Ele é o primeiro do tão conhecido Pardes (פרדס), os quatro níveis de interpretação da Torá (Pardes, Remez, Drash e Sod). Como principais comentaristas da Torá que usaram o pshat foram Rashi, Ibn Ezra, Sforno, Nachmânides com base em Rashi e Baal Haturim.

Hoje o estudo das parashiot com base no conhecimento do pshat é muito difundido em Israel principalmente nas yeshivot hesder, midrashot e em todo o sistema de ensino Mamlachti Dati. Este nível de entendimento é requerido dos Baalei Mikrá (os que irão ler a Torá publicamente nas sinagogas). Isso me lembra um amigo, chamado Elad, que na yeshivá me ensinou taamei hamikrá (sinais de musicais da Torá para leitura pública) que antes de começarmos a prática da leitura cantada eu tinha que entender cada palavra e o sentido de cada frase.

No próximo artigo da série veremos exemplos do uso do Pshat e também o uso dos taamei hamikrá para entender o texto.

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[1] Harav Landau, formado na Yeshivat Mercaz Harav, tendo estudado com Rav Tzvi Yehuda Hakohen Kuk ztz”l, com Rav Abraham Shapira ztz”l e com Rav Mordechai Eliyahu ztz”l. Dá aulas na Yeshivat Orot Aviv e no Machon Meir. Coautor nas obras: Mamarei Hareia, Midbar Shor e Tzemar Tzevi.

[2] Rambam, Guia dos Perplexos 1:1

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Categorias:Curiosidades, Leis, Tora Oral

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