Exegese vs Tradição Part 3


extTaamei Hamikra

Quem tem a oportunidade de abrir um chumash (um dos cinco livros da Torá impresso) nota que o texto hebraico está cheio de pontinhos. Uns são conhecidos, uma vez tendo participado das primeiras aulas de hebraico, tratam-se das vogais. Porém há outros sinais que a maioria das pessoas desconhecem completamente. Geralmente nos cursos de hebraico dizem o que são e logo saltam para outros temas. Estamos falando dos Taamei Hamikra (טעמי המקרא).

Em um primeiro contato com um chumash, e já conhecendo as letras hebraicas e as vogais, se desperta a curiosidade em querer entender o que significa tais sinais. Bom ao menos um parece ser muito claro e já confirmo a todos que sim, os dois pontos (:) no fim de cada pasuk sinaliza o fim de cada pasuk rs rs rs. Mas claro que estes sinais têm função e a mais conhecida é a de servir como indicadores musicais para a leitura pública da Torá. Esta é uma delas.

Na sinagoga, como todos sabemos, a Torá não é lida de um chumash, mas de um rolo de pergaminho feito de couro de aproximadamente 36 metros. No Sefer Torá as letras não possuem sinais fonéticos e nem os pasukim (versículos) estão separados. Isso dificulta muito a leitura. Vejam na imagem abaixo a diferença entre o texto do Sefer Torá à esquerda e o texto de um chumash à direita. Praticamente impossível saber onde se termina um pasuk e se começa outro.

exemplo.png

Os Taamei Hamikra são sinais de identificação para três funções:

1 – identificar o fim de cada versículo os separando uns dos outros, bem como identificar dentro do versículo conjuntos de palavras que formam uma frase, sentença, palavra composta ou, até mesmo, conectar o sujeito a seu adjetivo.

2 – identificar em que sílaba se encontra a acentuação da palavra para a correta pronunciação.

3 – identificar, por meio do canto, em que rito se está lendo a Torá ou qualquer outro livro do Tanach.

A primeira função é a que nos interessa no momento. Além de conhecer a gramática temos que também entender como está construído cada versículo para que possamos entendê-lo. Traduzindo palavra por palavra não significa que chegaremos ao entendimento do pasuk. A exemplo:

01_ex_passuk_devarim_31_2

Qual o sentido da palavra hoje no texto? Que neste dia se completaram seus cento e vinte anos ou que neste dia (ou nestes dias) já não poderá sair? Sem os sinais de leitura estaríamos em dúvida, mas os conhecendo entendemos que os versículos longos recebem pelo menos um atnach  atnach que o separa em duas orações (ou frases). Em cada uma delas há outras sub separações que as divide em frases sentenças e palavras. Nesta segunda oração encontramos o zakef katon  zakef-katon sobre a palavra hoje que o separa da frase seguinte. Portanto, neste mesmo dia era o aniversário de Moshê Rabenu. Vale adicionar que pelo fato da palavra hoje ser antecedida por uma palavra sinalizada com pashtá, os sábios quiseram destacar o fato de ser o aniversário de Moshê.

 yaacov_zvi_meklenburg_croppedEmbora a técnica seja conhecida e usada por Rashi e Ibn Ezra, rabinos do século XIX a desenvolveram e deu notável importância à compreensão da Torá por ela mesma dos quais podemos citar Harav Malbim (Meir Leibush ben Iechiel Michael Veizer) e Harav David Tzevi Hoffman. Mas destaco aqui a obra Haktav vehakabalá do Rav Yaakov Tzevi Mekelenburg que não apenas valoriza o Pshat mas mostra que as explicações da Torá Oral e de Chazal também são alcançadas a partir de uma compreensão profunda dos versículos da Torá Escrita.

Com base nos Taamei Hamikrá Harav Yaakov Tzevi Mekelenburg estabelece um conceito chamado de “explicação fechada” [tradução minha para מאמר המוסגר] que corresponderia a algo como o aposto no português. Harav explica que em muitos pasukim há uma explicação posta dentro do deles. Quando não identificada ou mal aplicada pode sugerir um mal entendimento ou até mesmo contradições, seja com o próprio texto seja com a Torá Oral. Como por exemplo:

02_Ex_Passuk_Shemot_22_3.png

Em uma leitura normal entende-se que “vivos” ao animais roubados. Porém chazal entenderam a Halachá como tendo a obrigação de se pagar dois animais vivos. Então estaria a Torá Oral em contra a Torá Escrita? Pois até mesmo por meio dos Taamei Hamikrá não havia conexão entre “vivos” e “dois pagará”. Mas graças a “explicação fechada” entendemos que a leitura correta seria: “Se encontrar em sua mão o roubo pagará dois [dobro], seja boi, asno ou ovelhas vivos”.

Ficamos por aqui. Espero que tenham gostado. E se gostaram recomendem a seus amigos e façam seus comentários aqui na página!

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Categorias:Curiosidades, Leis, Tora Oral

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