Vaikrá – Relação entre o Santo e o Profano


Parashat Vaikrá nos inicia falando dos korbanot (sacrificios), o que muito se falará em todo o livro. Mas ao final de nossa Parashá encontramos o seguinte pasuk:

נֶ֚פֶשׁ כִּֽי־תִמְעֹ֣ל מַ֔עַל וְחָֽטְאָה֙ בִּשְׁגָגָ֔ה מִקָּדְשֵׁ֖י יְהוָ֑ה וְהֵבִיא֩ אֶת־אֲשָׁמֹ֨ו לַֽיהוָ֜ה אַ֧יִל תָּמִ֣ים מִן־הַצֹּ֗אן בְּעֶרְכְּךָ֛ כֶּֽסֶף־שְׁקָלִ֥ים בְּשֶֽׁקֶל־הַקֹּ֖דֶשׁ לְאָשָֽׁם׃

Se uma alma profanar alguma coisa sagrada e pecar por erro nas santidades do Eterno, trará por seu delito ao Eterno, do rebanho, um carneiro sem defeito do valor de dois siclos de prata, segundo o siclo da santidade, por sacrifício de delito.

וְאֵ֣ת אֲשֶׁר֩ חָטָ֨א מִן־הַקֹּ֜דֶשׁ יְשַׁלֵּ֗ם וְאֶת־חֲמִֽישִׁתֹו֙ יֹוסֵ֣ף עָלָ֔יו וְנָתַ֥ן אֹתֹ֖ו לַכֹּהֵ֑ן וְהַכֹּהֵ֗ן יְכַפֵּ֥ר עָלָ֛יו בְּאֵ֥יל הָאָשָׁ֖ם וְנִסְלַ֥ח לֹֽו׃

E pagará o valor de da coisa sagrada pela qual pecou, acrescentando a quinta parte, e o dará ao sacerdote; e o sacerdote expiará por ele com o carneiro do delito, e lhe será perdoado.

Vaikrá 5:16

A coisa sagrada em referência no pasuk se trata dos sacrifícios que são queimados completamente, os chamados ‘olá e os minhat cohanim. Estes são santificados completamente dedicados a Hashem onde ninguém pode ter proveito de nenhuma de suas partes[1]. Demais sacrifícios tem a participação dos cohanim, dos ofertantes e de Hashem onde cada um recebe sua parte.

O caso que nos traz a Torá se refere a uma situação em que parte, ou o todo, da gordura, da carne, do azeite, da farinha ou do vinho foram trocados por outros que não foram santificados e consumidos por equívoco. Ou seja, alguém por equívoco teve proveito de um produto separado (santificado) para o sacrifício completo a Hashem. Neste caso, ainda que sem intenção, se deve trazer um sacrifício e restituir o que foi consumido acrescentado de 20%.

Interessante nortar que uns pasukim mais adiante a Torá nos traz o caso de um roubo da seguinte forma:

נֶ֚פֶשׁ כִּ֣י תֶחֱטָ֔א וּמָעֲלָ֥ה מַ֖עַל בַּיהוָ֑ה וְכִחֵ֨שׁ בַּעֲמִיתֹ֜ו בְּפִקָּדֹ֗ון אֹֽו־בִתְשׂ֤וּמֶת יָד֙ אֹ֣ו בְגָזֵ֔ל אֹ֖ו עָשַׁ֥ק אֶת־עֲמִיתֹֽו׃אֹֽו־מָצָ֧א אֲבֵדָ֛ה וְכִ֥חֶשׁ בָּ֖הּ וְנִשְׁבַּ֣ע עַל־שָׁ֑קֶר עַל־אַחַ֗ת מִכֹּ֛ל אֲשֶׁר־יַעֲשֶׂ֥ה הָאָדָ֖ם לַחֲטֹ֥א בָהֵֽנָּה׃

Quando alguma alma pecar, e fizer falsidade contra o Eterno, e negar ao seu companheiro a coisa que lhe foi entregue sobe custódia, ou um empréstimo em dinheiro, ou roubo ou extorquiu o seu companheiro, ou encontrou uma coisa perdida, e negou e jurou em falso; se fizer alguma de todas estas coisas que fazem o homem pecar.

וְהָיָה֮ כִּֽי־יֶחֱטָ֣א וְאָשֵׁם֒ וְהֵשִׁ֨יב אֶת־הַגְּזֵלָ֜ה אֲשֶׁ֣ר גָּזָ֗ל אֹ֤ו אֶת־הָעֹ֙שֶׁק֙ אֲשֶׁ֣ר עָשָׁ֔ק אֹ֚ו אֶת־הַפִּקָּדֹ֔ון אֲשֶׁ֥ר הָפְקַ֖ד אִתֹּ֑ו אֹ֥ו אֶת־הָאֲבֵדָ֖ה אֲשֶׁ֥ר מָצָֽא׃ אֹ֠ו מִכֹּ֞ל אֲשֶׁר־יִשָּׁבַ֣ע עָלָיו֮ לַשֶּׁקֶר֒ וְשִׁלַּ֤ם אֹתֹו֙ בְּרֹאשֹׁ֔ו וַחֲמִשִׁתָ֖יו יֹסֵ֣ף עָלָ֑יו לַאֲשֶׁ֨ר ה֥וּא לֹ֛ו יִתְּנֶ֖נּוּ בְּיֹ֥ום אַשְׁמָתֹֽו׃

e será que, quando pecar e se achar culpado, devolverá o que roubou, o que extorquiu, a coisa que lhe foi entregue sobe custódia ou a coisa perdida que achou, ou qualquer coisa sobre a qual jurou em falso; pagá-lo-á por inteiro e a isso acrescentará a quinta parte; a quem pertencer, o dará no dia em que ele se confessar culpado.

וְאֶת־אֲשָׁמֹ֥ו יָבִ֖יא לַיהוָ֑ה אַ֣יִל תָּמִ֧ים מִן־הַצֹּ֛אן בְּעֶרְכְּךָ֥ לְאָשָׁ֖ם אֶל־הַכֹּהֵֽן׃ וְכִפֶּ֨ר עָלָ֧יו הַכֹּהֵ֛ן לִפְנֵ֥י יְהוָ֖ה וְנִסְלַ֣ח לֹ֑ו עַל־אַחַ֛ת מִכֹּ֥ל אֲשֶֽׁר־יַעֲשֶׂ֖ה לְאַשְׁמָ֥ה בָֽהּ

E como oferta de delito, trará ao Eterno, um carneiro sem defeito, do rebanho, no valor de dois siclos, por oferta de delito, ao sacerdote. E expiará por ele o sacerdote diante do Eterno, e lhe será perdoado em qualquer uma de todas estas coisas que fizer, tornando-se culpado delas.

Vaikrá 5: 21-26

Temos duas situações bem diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Paradoxal? Sim! A diferença é que uma se trata de jurar em falso e usurpar deliberadamente, no outro, sem intenção, por um equívoco, se teve proveito de de algo santificado. Porém para ambos a penalidade é a mesma.

Nos ensina Rambam que não devemos nos inibir em buscar entender os significados das mitzvot, embora não alcancemos seu significado real e a verdadeira intenção de Hashem em nos ordená-los[2].  Por mais diversos significados que se possa deduzir das mitzvot sabemos que três objetivos principais são reais: a correção de nossos atos pessoais, a correção dos atos da sociedade, o conhecimento e a compreensão da verdade e a aproximação a D’us[3]. Como explica Rabenu em Sefer Hamitzvot que a mitzvá de amar a D’us se cumpre com o estudo de suas leis e a meditação nelas e quando alcançamos sua verdadeira compreensão buscamos revelar aos demais esta verdade como fez Abraham Avinu, o qual foi chamado de amado de D’us.

Aqui a Torá está nos ensinando valores. Geralmente se é mais cuidadoso nas relações com o próximo pois sabe que há uma possibilidade real de perda. Mas no que se refere as coisas sagradas a preocupação não é a mesma. E não é por falta de fé, talvez seja justamente o contrário por saber que o Eterno é piedoso e perdoa. Essa relação é semelhante à relação paterna. Um jovem não fala como quer com seus amigos pois sabe que há a possibilidade de não ser perdoado então prefere cuidar da relação para não perder a amizade. Porém, com os pais se diz tudo o que pensa, briga e ofende, pois sente segurança nesse relacionamento, afinal, sempre será filho e os pais também não perdem sua condição.

As vezes nos comportamos assim com o Eterno. Sabemos que ele sempre será D’us. Em tese D’us só deixa de ser “seu D’us” quando o próprio indivíduo assim o desejar. Então, por mais pecador que seja, desde que o indivíduo não decida o contrário, a relação segue entre eles segue válida. É com base nesta segurança que em determinado momento alguém decide por fazer algo contra as leis religiosas. Outros vão além, invalida leis ou as mudam e decidem que assim é a nova forma de servir a Hashem.

Para nos ensinar de que este tipo de pensamento está errado, a Torá condena, como um ladrão, aquele que intencionalmente faz uso do que foi santificado; devendo regressar o que foi usado adicionando-lhe 20%. E os que o fazem intencionalmente e deliberadamente não tem parte no Mundo Vindouro[4], isto é, sua relação com D’us é inexistente.

Devemos santificar todo o tempo em todas nossas ações. Há aqueles que não se relacionam bem com o próximo e finge uma boa relação com D’us; outros que possuem uma ótima relação com o próximo, mas uma péssima relação com D’us. Nenhum destes dois caminhos está bom. Devemos mantar uma relação íntegra com quem quer que seja, e nela santificar Shem Hashem.

Todas nossas ações devem ser executadas depois de meditarmos nelas e termos consciência de suas consequências. Se nos acordamos, devemos agradecer por mais um dia de vida e assim recitamos as bênçãos da manhã. Rezamos, pois somos primeiramente servos do Altíssimo. Só então devemos comer e ainda assim elevar este momento com bênçãos. Essa é a vida de um judeu, comedida, refletida e ponderada.

Que possamos sempre estar refletindo sobre nossas ações e em todas elas santificar a D’us.

Shabat Shalom

[1] Mishne Tora, Maase Korbanot 11

[2] Mishne Torá, Temurá 4:13; More Nevuchim 3:31

[3] More Nevuchim 3:27;32

[4] Mishne Torá, Leis do Arrependimento 3:6,9

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Categorias:Parashá com Rambam

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