Existiria uma obrigatoriedade haláchica de crer literalmente nos relatos da saída do Egito? Parte 1



Neste artigo estarei tratando o relato da saída do Egito unicamente dentro do ponto de vista teológico segundo o pensamento e as explicações de Rambam, Rabi Moshe bem Maimônides. Portanto nesta oportunidade não estarei tratando das provas históricas que evidenciam os fatos e os tornam cientificamente verdadeiros.


 

A cada ano as famílias se reúnem em volta da mesa para comemorar a festa de Pessach. Cheia de rituais e elementos simbólicos a refeição tem como momento principal a recitação da Hagadá, a história resumida da saída do Egito. Revive-se a história ocorrida a mais de três mil anos com muita alegria e canções, principalmente pelas crianças. O importante é não esquecer que um dia fomos escravos no Egito e que o Eterno, bendito seja, nos libertou com braço forte e mão estendida.

1-arqueologia-biblica2A história da redenção do povo judeu da servidão no Egito tem tanta relevância que não pôde ser contida por milênios dentro do povo judeu sendo conhecida por outros povos em todo o mundo. O povo judeu e o D’us de Israel foram conhecidos por meio dela. Hoje, para muitos não judeus, principalmente cristãos, a saída do Egito é uma das bases de sustentação de suas crenças, uma vez que se não houvesse a libertação do Egito, e a entrega da Torá em seguida, toda a crença perderia seu sentido.

Contudo os relatos da saída do Egito encontram controvérsias no mundo acadêmico pela carência de provas ou pela não aceitação de evidências encontradas por alguns historiadores e arqueólogos. Muito embora a aceitação dos relatos é sempre forçada pela fé, a dúvida provoca o questionamento e em certos casos culmina em argumentações teológicas não convencionais para uma aceitação da hipótese ou apenas da mensagem da liberdade e não necessariamente dos fatos.

Frente às controvérsias e às dúvidas nos cabe perguntar se há a obrigatoriedade de crer na saída do Egito como evento que ocorreu tal qual como descrito na Torá. E se a falta em sua crença levaria a comprometer a parte no Mundo Vindouro do qual todo israelita tem direito.

A Torá

Esta coleção de cinco livros chamada Torá relata a história do povo hebreu desde antes de sua origem. Ou seja, a Torá relata a trajetória do povo hebreu até Canaã começando desde a criação do mundo como uma forma de nos contar que o plano divino para esta nação já estava traçado desde então. Porém ela está longe de ser um livro de história, para o povo judeu a Torá é a revelação divina. A partir do momento em que se tem este livro como divino é natural que automaticamente se abra um abismo entre os crentes e os cientistas.

Se submetemos a Torá a uma análise histórica surgem centenas de questões que a colocam em uma posição desconfortável para os crentes, principalmente para os mais fervorosos. Mas devemos ter em mente que em história nada é absolutamente o que se diz ser. A história sempre é contada, revisada e recontada pois a medida que as investigações seguem, novas evidências e achados surgem para contribuir com a compreensão do passado. Portanto em história tudo é subjetivo e, em muitos casos, dedutivo; e quanto mais antigo for o fato e menos documentos e artefatos da época que colaborem com sua afirmação, mais as argumentações e teses perdem sua fidelidade. Portanto, nessas brigas pela veracidade da Torá não se evolui mais do que um 0x0.

passages-spanishinquisitionsefertorahscrolongvil14cQuando encaramos a Torá como a Revelação Divina nossa compreensão é dirigida para uma outra perspectiva. Os relatos embora importantes passam a ser plano de fundo ou cenário para a revelação da mensagem a qual, de fato, é o mais importante. Rashi, Rabi Shlomo Itzhak (século IX), questiona no primeiro versículo da Torá por que a revelação começa com a criação do mundo e se estende relatando toda as gerações até Abraham e deste até a chegada de Yaakov com seus filhos ao Egito. Para Rashi, fazendo uso de um midrash em nome de Rabi Itzhak, lhe pareceria lógico ser mais objetivo e começar a Torá com o primeiro mandamento: kidush hachodesh (Shemot 12:2), uma vez ser esta a finalidade da Torá. Mas não. O relato da criação é importante para nos ensinar que D’us é o dono de tudo o que criou e que Ele decide a quem e o quando dar de suas bondades.

Todos os meforashim (comentaristas) da Torá desviam seus esforços em provar a veracidade dos fatos, porém os concentram para entender a história em sim, revelando sua trama e para extrair daí a mensagem oculta nos fatos e a normativa comportamental. Tudo isso com o objetivo de alcançar o conhecimento de como D’us administra o mundo e qual sua vontade para nós.

Se a mensagem é o mais importante no estudo da Torá não podemos encerrar este capítulo sem saber qual é a essência desta mensagem. Como dissemos antes, a Torá é a revelação divina, mas revelação do quê? Revelação divina do Divino. A Torá nos revela D’us. A humanidade teve a oportunidade de conhecer a D’us de forma direta em uma existência de revelação contínua. Porém esse projeto foi interrompido com a caída do homem de seu nível espiritual, nos referimos a caída de Adam. Desde então a humanidade cada vez mais foi se distanciando do conhecimento de D’us. Começou-se a venerar e respeitar os astros, depois já os concebia como ministros de D’us, depois como semideuses até que as forças da natureza tomaram seu assento no panteão e foram adoradas como deuses[1].

A Torá revela a D’us por meio da história do povo judeu. Os relatos dos santos patriarcas, dos profetas, das guerras e das festas em tudo nos revela como o Eterno se relaciona com a humanidade e como devemos nós nos relacionar com Ele. Tudo é revelação do conhecimento da existência de D’us e de sua unidade, como está escrito: “a ti te foi mostrado para que soubesses que Hashem é D’us; nenhum outro há senão Ele” (Shemot 4:35).

Além do conhecimento da verdade da existência e da unidade de D’us a mensagem da Torá também é a de lapidar a nós mesmos e a sociedade. A organização pessoal e social segundo as orientações da Torá nos serve para que criemos um ambiente psicológico, espiritual e social sadio para que se tenha o melhor proveito nos esforços para o conhecimento de D’us[2].

[1] Mishne Torá, Leis de Idolaria 1

[2] Guia dos Perplexos 3:27

Existiria uma obrigatoriedade haláchica de crer literalmente nos relatos da saída do Egito? Parte 2

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