Existiria uma obrigatoriedade haláchica de crer literalmente nos relatos da saída do Egito? Parte 2


A profecia

A revelação divina não se dá com a abertura das cortinas em um grande espetáculo. Ela não pode ser um fenômeno natural. Não obstante, sim pode fazer uso da natureza para tal. Há casos, e não poucos, de pessoas mais sensitivas, ou que tiveram sua sensibilidade aflorada por fatores externos, que encontram a D’us ao ler um versículo, ao ver uma paisagem, ao participar ou presenciar bons atos de caridade etc. Há os que creem nesses casos como sendo uma revelação a um indivíduo em particular.

Esse tipo de encontro com D’us não se trata de uma revelação mas sim da compreensão do mundo, da Torá e de eventos naturais que levam tal indivíduo a crer na existência de D’us e em sua unidade. Na verdade este é o nível mais elevado, pois vem por meio do esforço em conhecer e perceber a verdade. Esperar por milagres, sinais ou profetas para crer em D’us é sinal de falta de emuná (fé) e está longe de ser um nível mais elevado de encontro com o Criador.

No mundo antigo apenas um número muito pequeno de pessoas podia alcançar a D’us através da observação do mundo e pela compreensão de sua vontade na natureza. A fim de fazer-se conhecido D’us agracia aqueles que alcançam conhecê-lo por meios naturais com o conhecimento sobrenatural, com a revelação dos desígnios por meio de sonhos e visões. Esta é a profecia e os agraciados com ela são chamados profetas.

Desde o primeiro homem, houveram a milhares de profetas. Todos eles se levantaram para transmitir as mensagens do Eterno para a humanidade. Cada profeta possui seu próprio nível, alcançado segundo o seu  esforço em corrigir suas qualidades e  seus valores e no conhecimento de D’us. Dentre todos os profetas há Moshe Rabenu, filho de Amram, nascido no Egito. Moshe alcançou o nível mais alto de aproximação e revelação de D’us, tornando-se o maior de todos os profetas. A própria Torá testemunha a seu respeito ao dizer:

“…Ouvi agora as minhas palavras; se entre vós houver profeta, eu, o Senhor, em visão a ele me farei conhecer, ou em sonhos falarei com ele. Não é assim com o meu servo Moisés que é fiel em toda a minha casa. Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do Senhor; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” Bamidbar 12:6-8

Moshe se diferencia de todos os demais profetas por receber uma revelação clara de D’us. Todos os demais profetas, segundo explica Rambam, receberam as profecias por meio de sonhos e visões; nada acontece realmente no plano físico[1]. Isso inclui também os relatos das experiências dos patriarcas e até mesmo de Adam Harishon. Pois como está escrito:

“E eu apareci a Abraham, a Yitzhak, e a Yaakov, como o EL Shadai; mas pelo meu nome, Hashem, não lhes fui conhecido” Shemot 3:6

Nem mesmo os profetas posteriores a Moshe poderiam alcançar seu nível de profecia e de sinais, como está escrito:

“E nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moshe, que conheceu Hashem face a face; nem em todos os sinais e maravilhas, que Hashem o enviou para fazer na terra do Egito, a Faraó, e a todos os seus servos, e a toda a sua terra. E em toda a mão forte, e em todo o grande temor, que fez Moshe aos olhos de todo o Israel” Devarim 34:10-12

Apenas Moshe foi capaz de receber as profecias em sã consciência e com pleno domínio de suas faculdades físicas e mentais. Ou seja, se estivéssemos ao lado de Moshe no momento em que ele recebesse uma profecia o veríamos normal e não daríamos conta do que passava; pois apenas ele, naquele momento, estaria recebendo a mensagem e vendo as revelações.

A Revelação

Dessa forma, a tão grande profeta foi dada a missão de receber, escrever e anunciar a mensagem divina. A Torá é esta mensagem. E como dissemos anteriormente ela tem a função de anunciar a existência e a unidade de D’us por meio da história do povo hebreu desde antes de sua gêneses (ver primeira parte).

Nesta revelação do Divino na história da gêneses do povo hebreu relatada na Torá podemos dividi-la em dois tempos: período patriarcal e o período mosaico. O que diferencia estes dois tempos é a abrangência ou o quão grande foi a revelação. No tempo dos patriarcas a revelação se deu apenas aos destacados espiritualmente daquela geração como vemos a exemplo de Noach e Abraham[2]. A revelação do Divino que se tinha até este momento não era com o propósito de entregar uma mensagem para o mundo, mas visava o aperfeiçoamento pessoal com a construção de valores com os quais se formaria o povo hebreu. Todo aquele que se aproximava à fé abraâmica o fazia pela aceitação do comportamento dos patriarcas como algo correto e exemplo a ser seguido[3].

Com Moshe e com todo o relato da saída do Egito a revelação deixa de ser pessoal e passa a ser nacional. O Eterno começa a se revelar a todo o povo. “…mas pelo meu nome, Hashem, não lhes fui conhecido”, D’us se apresenta ao povo hebreu e também ao povo egípcio de uma forma como não havia se apresentado antes. A grande nação egípcia experimenta e vivencia a revelação de divina que se dá por meio dos milagres.

A revelação já não poderia ser de forma pessoal como ocorrida com os patriarcas. Assim questiona Moshe a Hashem: “e me dirão: qual o nome dEle?” (Shemot 3:13). É compreensível que uma pessoa creia na afirmativa de alguém que diga ter experimentado uma revelação divina, mas toda uma nação de escravos se mobilizar para sair do julgo da nação mais poderosa do mundo antigo só porque alguém, por mais notável que fosse, diga que D’us falou com ele é absurdo. Por isso Moshe pede o Nome com o qual poderia confirmar a revelação. Como uma espécie de código secreto que serveria para confirmar seu relato. Vemos que a halachá futuramente obrigava a avaliação dos profetas como está escrito:

“…e como saberemos o que não disse Hashem? Quando fale o profeta em nome de Hashem e não suceder esta é o que não disse Hashem…” (Devarim 18:22)[4].

A profecia de Moshe vêm com o propósito de revelar a mensagem da Torá. Já não é mais uma revelação pessoal, mas nacional. E desta vez, pela experiência do povo hebreu em sua libertação do Egito todos os demais povos poderão conhecer a Hashem e sua unidade e se acercar a Ele. Então pode-se dizer que a revelação dos eventos da saída do Egito é a nível mundial. Uma revelação de tamanha grandeza se faz necessário um testemunho também grande para que naquela geração se soubesse que de fato D’us existe. Dessa forma o relato da saída do Egito foi sabido por todo o mundo antigo, como diz o pasuk:

“Os povos o ouviram, eles estremeceram, uma dor apoderou-se dos habitantes da Filístia. Então os governantes de Edom se pasmaram; aos poderosos do Moab apoderou lhes um tremor; derreteram-se todos os habitantes de Canaã” (Shemot 15:14-15).

Edomitas e moabitas, ao contrário dos cananeus, não tinham do que temer, uma vez que os hebreus não iriam para conquistar suas terras. Mas pelas maravilhas dos milagres se espantaram[5]. Interessante notar que a Torá não diz que por causa dos sinais creram em Hashem, pois de fato não se tornaram piedosos dentre as nações. O objetivo dos sinais não é motivar a crença, o arrependimento e a devoção, mas chamar a atenção para a confirmação da verdade. A crença deve ser na mensagem e os sinais fazerem parte do cenário. Ainda assim, aqui, neste ponto, a revelação se manifesta em duas formas: uma por meio da profecia e outra por maio de sinais e milagres.

 

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[1] Há que levar em consideração que nesta apresentação estamos abordando o conceito de profecia segundo a opinião de Maimônides. Para outros sábios como Ramban (Nachmanides) as revelações vividas pelos patriarcas e demais profetas onde se relatam experiências físicas se deram no plano físico.

[2] Bereshit 6:9; 18:17,18

[3] Guia dos Perplexos 1:63

[4] Para melhor saber como se provavam os profetas ver Mishne Torá, Yesodot Hatorá 8

[5] Rashi sobre o pasuk

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