Eu Não Choro Pelo Beit Hamikdash


Hoje, 9 de Av do ano 5777, completaram-se 1949 anos da destruição do Beit Hamikdash, o Templo Sagrado dos judeus. Voltando do trabalho para casa antes de começar o jejum me impressionei de como Jerusalém estava vazia. Parecia Erev Shabat. Poucos carros nas ruas, pouca gente transitando e um silêncio que se fazia notar.

Não me recordo que em anos anteriores tivesse sido assim, pode até ser, porém neste ano o percebi. Talvez motivados pelo ocorrido nas últimas semanas quando policiais foram vitimados por terroristas no Monte do Templo e que o governo decide restringir a entrada de muçulmanos na esplanada das mesquitas, o que provocou uma onda de protestos e atentados. O caso é que as pessoas pareciam mais conectadas com o Har Habait (Monte do Templo).

O lugar sempre  foi e é o centro das atenções, seja entre os judeus ou entre as nações. Seja por qual for o motivo Jerusalém aparece nos principais jornais ao menos uma vez por mês. Todos os olhos estão direcionados para ela. Especialmente neste dia todas as rezas do povo judeu estão direcionadas a Jerusalém e por ela.

francesco_hayez_017Hoje lamentamos e jejuamos pela destruição de Jerusalém e seu Templo. Rezamos por sua reconstrução. Como nos ensinam chazal: “todo aquele que faz luto por Jerusalém terá o mérito de ver sua alegria; e aquele que não faz luto por Jerusalém não verá sua alegria” (Taanit 30b). Nisso nos ensinam os sábios que devemos chorar e lamentar por Jerusalém e pelo Templo. Eu posso entender a tristeza que habitava o coração de chazal pela falta do Templo pois eles o viram, ofereceram seus sacrifícios e sabiam o seu valor, portanto poderiam sentir sua falta. Mas nós que nunca vimos o Templo e nem sabemos como era a sensação de estar nele, como podemos chorar? Como chorar e fazer luto por algo que nunca tivemos?

Harav Shimshon David Pinkos z”l faz uma alegoria sobre nossa geração com a seguinte história:

Havia uma casal que passados 25 anos de casados nunca puderam ter filhos. Já passados tantos anos estavam acostumados e aceitaram o seu destino. Porém, em uma consulta médica por mal-estar de sua esposa descobrem que ela está grávida. O caso é delicado pois se trata de uma gravidez de risco haja vista a futura mamãe haver passado dos quarenta anos. O esposo investe nos melhores médicos e pré-natal constante.

No dia do parto o triste dilema. Os médicos informaram que o caso é de risco de morte e que se deverá escolher a quem dedicar os esforços para manter com vida, se o bebê ou se a mãe. O esposo opta por sua esposa companheira de tantos anos, porém, ela decide pela vida do filho que seus esposo esperou por 25 anos. A mulher escreve uma carta para seu filho que iria nascer dizendo que o ama muito e explicando sua decisão e na hora do parto deixa seu filho aos cuidados do pai.

O pai cria seu filho sozinho. No aniversário de seis anos, dia da hazkará de sua mãe. Enquanto que seu pai e seus tios estão tristes a criança resolve saltar por todo lado e brincar. Seu tio o chama a um lado e diz: “hoje é o dia da hazkará de sua mãe, você não tem respeito?” O menino responde: “Hazkará? Hoje é meu aniversário. Porque não posso ter um aniversário como meus amigos? Porque em vez de festa tenho choro? Que mãe? Por que não tenho uma mãe como meus amigos que os levam a passear, lhes ensinam as tarefas e brincam com eles? Em vez disso tenho uma pedra fria que meu pai me leva e diz “aqui está sua mãe”.

efc150_c5700408f83842e3b97cdfef27c9e3b7mv2Assim é Am Israel de nossa geração.  Não conhece o Bei Hamikdash. Nunca teve qualquer experiência com ele. Como podemos chorar por ele? Não conhecemos o valor dele e nem quão dolorosa é sua falta.

Certa vez uma criança entrou no carro do pai para brincar. De tanto mexer em tudo o que via terminou por desabilitar o freio-de-mão. O carro andou e bateu contra uma árvore. O pai sai de casa rapidamente e vê o desastre. Vendo que seu filho estava bem perguntou se ele se sentia mal pelo que fez. A criança disse que sim, pediu perdão foi brincar com seus brinquedos.  O pai inconformado observa que o filho estava brincando com um carro que gostava muito. O pai tomou o carro e começou a brincar. Na “brincadeira” bateu o carro na parede com tal força que o quebrou. A criança começou a chorar inconformada pelo seu melhor brinquedo. Então o pai leva a criança à garagem, mostra o seu carro e pergunta: “agora você sabe como eu me sinto?” O pai abraçou o filho e choraram juntos suas perdas.

Nós não sabemos o valor da perda do Beit Hamikdash, como também não sabemos o que significa perder o Mundo Vindouro, porque nunca tivemos essas coisas. Não temos nem idéia de como são. Por isso Hashem nos traz issurim(sofrimentos) para que por meio do sofrimento das nossas próprias perdas Hashem conte nossa lágrimas como se estivéssemos chorando pela perda do Beit Hamikdash e do Olam Habá e assim nos expiar. Por isso os pecados práticos não são expiados apenas com o arrependimento, mas se faz necessário que sofrimentos venham ao homem para que se os expie.

Para que nos entristeçamos em 9 de av possamos chorar é que os sábios decretaram que devemos nos comportar como enlutados, estudar temas tristes e luto e ler Meguilat Echá (Lamentações de Yermiá). Espera-se que lendo os tristes relatos da destruição de Jerusalém possamos nos comover e chorar e lamentar para que Hashem conte nossas lágrimas e possamos ter o mérito de nos alegrar em Jerusalém reconstruída.

1113099-5Os talmidei chachamim por sua vez, por poderem alcançar o real significado do Beit Hamikdash e sua falta, conseguem chorar pelo Templo mesmo e por Jerusalém. E isso não está longe de nós. Se nos dedicamos ao estudo da Torá e se nos conectamos com as Mitzvot poderemos nós também vir a sentir a falta do Templo e do cheiro dos sacrifícios e assim lamentar sua destruição. Aí já não necessitaremos de atalhos para chorar, mas já estaremos tristes de verdade por nossa separação da shechiná.

 

Tzom Kal Umoil

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Categorias:Curiosidades, emuná, Festas, Leis de Teshuvá, Uncategorized

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3 replies

  1. " A Desobediência Resultou na Destruição , mas a Obediência Resultará na Reconstrução "
    JP Marvila

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    • É mais uma questão de consciência do que simplesmente obediência. Obviamente que obedecer os mandamentos é o que se espera de cada judeu. Porém é através de uma consciência plena de nossa missão neste mundo e do propósito divino para ele que nos leva à obediência devida.

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