A visão de Yaakov


Por Refuá Shelema de:
Shoshana bat Mazal,
Harach Hanolad ben Odélia

Muito se explica sobre os significados da visão da escada com anjos subindo e descendo que teve em sonho Yaakov depois de partir de Ber Sheva a caminho de Haran. Conectam esta visão com a relação entre o povo judeu e a terra de Israel, ou a relação do homem com D’us e também o recebimento entre as rezas e os sacrifícios. Na verdade ninguém sabe o real significado da revelação, por isso por isso as diversas explicações. Cada explicação é abordada segundo um ponto de vista, geralmente o daquele que busca entender a mensagem, obviamente se apoiando em passukim da Torá para validar seu ponto de vista, isso se chama interpretação ou drash. A proposta agora é buscar um significado da revelação para aquele que a recebeu, ou seja, tentar entender o pshat da mensagem.

Quando lemos sobre a visão de Yechezkel vemos seres com feições de animais, outros meio-humanos, rodas com olhos etc. Além de tenebrosa é uma imagem enigmática que inibe um pouco a curiosidade por um certo pavor na leitura. A visão de Yaakov, por sua vez, é muito simples se a comparamos com a de outros profetas. Temos apenas dois elementos: escada e anjos. Isso talvez nos ajude a melhor decifrar a profecia.

Os anjos, que já falamos um pouco sobre eles em outra oportunidade (refresque a memória clicando aqui), são seres destituídos de matéria. Como explica Rambam: são consciências incorpóreas. Por não terem corpo eles podem ser revelados nas profecias com qualquer forma a fim de dar ao profeta a melhor compreensão da mensagem. Por isso vemos no Tanach os anjos se manifestarem em forma de homens, mulheres, animais, espada etc. Tudo segundo a necessidade da revelação. Porém, a mesma palavra מלאך (malach) significa também emissário ou um enviado a representar alguém. Portanto, a mesma palavra é usada para se referir a seres celestiais e a seres humanos, ver Yehoshua 6:17, pois sua aplicação depende do contexto. Sendo um malach um enviado a representar alguém, quem seriam os enviados de D’us na terra? 

Em Shemot 33 Hashem promete a Moshê que enviaria um anjo e que expulsaria as sete nações que habitavam a terra de Canaã. Em sefer Yehoshua (5:13) o anjo prometido aparece a Yehoshua, em profecia, para dar-lhe a segurança de que Hashem estaria com ele e seria sua ajuda. O profeta recebe a profecia dos anjos chamados “ishim”, que recebem este nome por se apresentarem em aspecto humano. Eles entregam a mensagem ao profeta e este a transmite e executa a vontade divina. Existem dois paralelos um chamado o mundo físico e o outro o mundo metafísico (espiritual); um mundo influencia no outro e há representatividades de um mundo para o outro. Assim, o anjo chefe dos exércitos está para a corte celestial assim como Yehoshua estava para o povo hebreu. Era Yehosha quem liberaria a terra das sete nações ele era o anjo prometido manifestado no mundo físico orientado pelo anjo no mundo espiritual.

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Dessa forma, quando vemos em Shemot 23 que Hashem envia um anjo diante do povo que há que respeitá-lo e escutar sua voz com o qual seu Santo Nome está, se refere aos profetas que recebem de um anjo a profecia e as ordens e as transmitem ao povo (Guia dos Perplexos 2:34). Uma vez entendido que anjos no Tanach não se referem exclusivamente a seres sobrenaturais do mundo espiritual mas também fazem referência aos dirigentes do povo e aos profetas, podemos agora entender porque aqui nesta visão entende Rambam que os anjos nela vistos se tratam de profetas (Guia dos Perplexos 1:15).

Como já tratamos antes, a profecia não é dada a qualquer um (veja aqui), mas qualquer um pode buscar elevar-se mentalmente e espiritualmente a fim de estar em um nível que o permita ser agraciado com o dom da profecia, se assim D’us quiser, ou com o ruach hakodesh, um nível mais baixo de profecia o qual alguns identificam como inspiração divina. Explica Rambam que a profecia só pode ser dada àquele que é dotado de grande sabedoria, de qualidade de atributos, que não está subjugado a suas inclinações, boa condição física e de saúde e que se se santifica e eleva sua vida no serviço divino (Yesodei Hatorá 7:1). A escada estaria fazendo alusão ao esforço e dedicação em se elevar a fim de chegar ao seu topo, que é onde está Hashem. O estudo da Torá e o cumprimento das mitzvot nos leva a alcançar a Hashem que detém todo o conhecimento. Quando se chega ao topo da escada se tem a revelação da profecia. Os anjos subindo simboliza a elevação espiritual que o profeta tem quando dedica sua vida ao serviço divino. Ao chegar no topo, ou seja, ao alcançar o nível no qual se pode receber o conhecimento da divindade, se encontra com D’us, recebendo aí a profecia. Uma vez recebida a mensagem e os designos divinos o profeta desce a escada voltando a este mundo para entregar a mensagem e executar as orientações recebidas.

Yaakov se dedicava ao estudo da Torá aprendendo de seus pais Rivká e Yitzhak, ambos profetas. A Torá mesma atesta sua dedicação ao referir-se a ele como “ingênuo e habitante tendas” (Bereshit 25:27). A ingenuidade de Yaakov, explicam os sábios, era de tal ponto que sua boca e seu coração diziam o mesmo. Não habitava sua tenta, pois está no plural. Yaakov habitava as tendas de Shem e Ever, ou seja, se dedicava ao estudo da Torá transmitida a seu tempo pelos profetas. Após receber bircat Avot passa a entender sua responsabilidade como patriarca daqueles que formarão o povo hebreu e que terão o dever de guardar e professar a Torá e a emuná em Hakadosh Baruch Hu frente aos idólatras. 

Foi em uma vida muito cômoda em que estudava e se preparava para ser o cabeça de todas as gerações de Am Israel, não precisava trabalhar e esperava que, a exemplo de seu pai, a mulher que o completaria lhe chegaria montada em camelo trazida por um servo. Mas agora ele tem medo, pois se encontra com a realidade de sua vida. Tem que sair da casa de seus pais, fugir da fúria de seu irmão, migrar para uma terra que lhe é estranha e buscar uma esposa entre seus parentes que são conhecidos por sua idolatria. Yaakov se sentia em queda espiritual. Entendia estar sendo castigado pelo que fez a seu irmão Esav. Não entendia como seria digno de carregar consigo bircat avot tendo que descer tão baixo.

Segue explicando Rambam que intencionalmente traz o texto que o movimento dos anjos (profetas) segue esta ordem: sobe e desce. Quando sobe significa este esforço para alcançar o conhecimento e o deleite maior que é Hashem, abençoado seja. Porém a descida não significa uma queda espiritual. Claro que depois que se alcança o topo da escada ninguém quer mais descer dela. Contudo, a descida é necessária pois o profeta sobe para receber a mensagem da verdade e desce para anunciar os desígnios do Altíssimo para a humanidade. Há que voltar para o mundo das impurezas, para as pessoas más, para a realidade tão feia que é este mundo pois é nele que se deve revelar a verdade divina, é nele que se tem efeito a Torá.

Por meio da visão entende que sua “queda” na verdade é o meio pelo qual a verdade divina será anuncia à humanidade. Desperta-se assustado, mas tão fortalecido em sua emuná que desce para o mundo dos homens para buscar suas esposas com as quais formará o povo hebreu. Na mesma manhã assume sua missão e faz um juramento de transformar o Monte Moriá (atual Monte do Templo em Jerusalém) na casa de D’us onde se dedicarão seus sacrifícios e se apartarão seus dízimos. Então diz Yaakov (para saber sobre a promessa clique na imagem abaixo):

portal

“Se D’us é comigo e me guardará neste caminho que vou seguindo, e me dar pão para comer e roupa para vestir, e me regressará em paz à casa de meu pai e será Hashem para mim por D’us, então (agora, depois da introdução, segue a promessa de fato) esta pedra, que coloquei como monumento, será Casa de D’us, e de tudo quanto me deres, certamente dar-Te-ei o décimo”. (Bereshit 29:20-22)

Shabat Shalom

 

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Categorias:Curiosidades, emuná, Guia dos Perplexos, Leis de Teshuvá, Mishne Torá, Parashá com Rambam, Tora Oral

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