Veganos e Carnívoros


Hoje vivemos um mundo de mudanças sociais relevantes. O livre pensamento, estimulado principalmente pela difusão livre da informação, permite a construção de teorias diversas e, a partir daí, a formação de ideologias que de forma natural cativa seus simpatizantes e de forma epistêmica os converte em correligionários. Nisso, nossa sociedade perde sua homogeneidade relativa dando lugar à formação de grupos ideológicos diversos. Este fenômeno não é novo, mas em nossa era se faz mais notório.

Dentre tantos grupos divididos em tantos temas existem os vegetarianos. Grupo este, que acho super legal, entende que uma dieta alimentar com base na abstinência de carne animal é mais saldável ao ser humano e de melhor responsabilidade ambiental. Até aqui está perfeito. Porém, desde a segunda metade do século passado começa a surgir o que podemos chamar de vegetarianos extremistas os quais não se satisfazem com um modelo de vida individual e planejam o vegetarianismo como um modelo de sociedade. A fim de alcançar esse objetivo se tenta persuadir que a dieta alimentar da humanidade é moral, ética e religiosamente errada.

Mezuzah Sefaradi

Kesherá y Mehuderete

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O vegano judeu defende que a vontade divina é que o homem seja vegetariano e não coma carne. Frente a isso, nos perguntamos qual seria a posição da Torá e dos sábios a respeito. Comecemos com uma história na Guemará sobre Rabi Yehudá Hanassi (Rebi), o compilador da Mishná:

“Uma vez pegaram um bezerro para o abate, e o bezerro sentiu para quê o pegaram, e para escapar do seu destino amargo, ele fugiu e escondeu a cabeça entre as vestes de Rebi e chorou. Disse Rebi ao bezerro: “Vá para o shochet, pois para isso foi criado”. Ao mesmo tempo se iniciou no céu uma grande discussão e disseram que, como não sentia pena daquele bezerro, sofreria um sofrimento severo. Assim, durante treze anos, Rebi sofreu de dores de gengiva e ao urinar. Um dia, sua criada limpou a casa e encontrou pequenos filhotes de rato e foi jogá-los. Rebi disse-lhe: Deixe-os, pois está escrito: “e sua misericórdia está sobre todas suas criaturas” (Tehilim 145: 9). Ao mesmo instante disseram nos céus: uma vez que Rebi mostra grande misericórdia aos animais, é conveniente que também sobre ele se manifeste a misericórdia. E se lhe desapareceram as dores”[1].

Não há de negar que há uma responsabilidade por parte da humanidade com toda a criação. O mandamento dado a Adam Harishon e a Havá em Bereshit de dominar sobre todos os animais que estão nos mares, que voam no céu e que se arrastam na terra não é para subjuga-los somente, mas também para mantê-los existindo conforme sua natureza.

Há um mandamento da Torá que se chama “prikat mit’am hamor” (desmontar a carga do burro) que aprendemos em Sefer Shemot, onde diz:

כִּי תִרְאֶה חֲמוֹר שֹׂנַאֲךָ רֹבֵץ תַּחַת מַשָּׂאוֹ וְחָדַלְתָּ מֵעֲזֹב לוֹ, עָזֹב תַּעֲזֹב עִמּוֹ

Quando vires o asno daquele que te aborrece caído debaixo da sua carga, deixarás pois de ajudá-lo? Ajudá-lo-ás[2].

Independente de nosso relacionamento com o dono do animal devemos ajudar a aliviar o sofrimento de um animal doméstico sempre quando nos é possível. Ora, se devemos aliviar o sofrimento do animal de outra pessoa certamente que inclui-se a este mandamento a proibição de fazer um animal sofrer. Sendo assim, por que abater a um animal?

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É certo que quando o homem foi criado lhe estava ordenado a comer grãos e frutas somente. Esta é a dieta original do homem: ser vegetariano. Como nos ensina Torat Bereshit: “eis que vos tenho dado toda erva que dá semente que está sobre a face de toda a terra, e toda árvore que tenha fruto que dá semente, será para vós por alimento”[3]. Isso porque até antes da queda do homem todos, incluindo os animais, estavam baixo a mesma dieta vegetariana. Esse era o mundo ideal; era o Gan Éden.

Depois da caída do homem e que o mundo desceu de seu nível espiritual tão elevado toda a criação mudou sua essência. Os animais também começaram a comer uns aos outros e a se relacionarem sexualmente fora de suas espécies, bem como a humanidade que seguiu o mesmo caminho de comer carne, relações sexuais proibidas, roubo e ódio. Nisso vem o dilúvio para reestabelecer a ordem moral sobre a humanidade. A partir daí que Hashem permite ao homem a comer carne, ver Bereshit 9:3.

Contudo, não é certo dizer que a Torá proíbe o consumo de carte, pelo contrário, há uma mitzvá de comer a carne dos sacrifícios. Porém, toda carne que se come fora do ritual do templo é considerada pela Torá como “desejo” (incontrolável): כִּי תְאַוֶּה נַפְשְׁךָ לֶאֱכֹל בָּשָׂר, בְּכָל אַוַּת נַפְשְׁךָ תֹּאכַל בָּשָׂר (porquanto tua alma deseja comer carne, com todo o desejo de tua alma comas carne)[4]. O ideal seria que para comer carne que se trouxesse o animal do rebanho para o Templo e aí se o sacrificasse para que a alimentação fosse em kedushá e não um mero ato de selvageria.

A Torá permite ao homem que cace um animal para comer, bem como crie animais para o consumo. Embora o ideal seria que alcancemos o nível de Adam Harishon e nos alimentássemos unicamente de grãos e frutas (para sermos precisos no texto da Torá, as verduras e raízes seriam o alimento apenas para os animais, nisso alfinetaríamos os veganos), todo o tempo em que no homem ainda haja o desejo de comer carne que o coma, pois é evidente que a humanidade ainda não se elevou o suficiente para que alcance o nível de Adam Harishon no que se refere a alimentação[5].

Traz a Parashá dessa semana o seguinte pasuk:

וְאִישׁ אִישׁ מִבְּנֵי יִשְׂרָאֵל וּמִן הַגֵּר הַגָּר בְּתוֹכָם אֲשֶׁר יָצוּד צֵיד חַיָּה אוֹ עוֹף אֲשֶׁר יֵאָכֵל וְשָׁפַךְ אֶת דָּמוֹ וְכִסָּהוּ בֶּעָפָר:

E qualquer pessoa dos filhos de Israel, e do convertido que mora entre eles, que caçar animal ou ave para que coma, derramará o seu sangue e o cobrirá com pó;[6]

Explica Rabenu Harambam que entre os costumes da antiguidade estava o de considerar o sangue como impuro e relacionado como os demônios e quem o bebesse, em seus rituais, se igualava a esses demônios e compartilharia de seus poderes ou sobre eles teria controle. Dessa forma os praticantes de idolatria sacrificavam seus animais e comiam sua carne meio a seu sangue. Dessa forma a Torá nos proíbe comer do sangue do animal como forma de concertar essa compreensão equivocada do valor do sangue[7], como está escrito: “e de todo sangue, não comerás”[8].

Para a Torá o sangue é puro e tem o poder de purificar aquele que faz seu sacrifício no Templo. Por meio da aspersão do sangue se santificou a Aharon, seus filhos e suas vestes para a kehuná[9]. A fim de ensinar a Am Israel sobre o valor real do sangue e sua pureza é que durante todos os 40 anos que estiveram no deserto não se poderiam comer carne segundo o desejo de sua alma; apenas por meio de sacrifício poderiam saciar o desejo. Apenas quando entram em Eretz Israel se permite que os que vivem longe do Templo possam comer carne tanto de animais de caça como de rebanho e aves, uma vez que seria difícil vir para Jerusalém para aí sacrificar o animal[10]. De seu sangue não deveria ser comido, como faziam os idólatras, mas deveria ser derramado sobre a terra ou enterrado, como no caso de aves e animais de caça.

Não se está obrigado a cobrir todo sangue, mas apenas do animal de caça e aves que se abate para o consumo[11]. Para que não se descuidar e comer a carne do animal meio seu sangue e se assemelhar assim com as práticas idólatras.

Portanto, aquele que quiser se abster de comer carne, que não coma, porém não se deve pregar essa prática como sendo uma orientação da Torá. Aquele que queira comer carne, que o faça em kedushá comendo carne abatida por um shochet a qual se tem o cuidado de extrair seu sangue para que não passe pela proibição de comer sangue. Todo aquele que come sangue intencionalmente tem sua alma excluída de Am Israel[12].

Conheça nosso PodCast:


[1] Baba Metzia 65a

[2] Shemot 23:5

[3] Bereshit 1:29

[4] Devarim 12:20

[5] Harav Kook, Visão do Vegetarianismo e da Paz, 4

[6] Vaikrá 17:13

[7] Guia dos Perplexos 3:46

[8] Vaikrá 7:26

[9] Shemot 29:21

[10] Guia dos Perplexos 3:46

[11] Mishne Torá, Shechita 12:10

[12] Sefer Hamitzvot, Mitzvot Negativas, Lei 164

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Categorias:Curiosidades, Mishne Torá, Parashá com Rambam

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