Memahorat Hashabat


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Pode-se dizer que esta é umas das maiores discussões sobre a interpretação da Torá. Teve seu início ainda no tempo do Segundo Templo iniciada pelos baitussim, foi novamente posta sobre a mesa por volta do século XI motivada, desta vez, pelos karaítas. A partir da era moderna o tema é discutido no meio acadêmico ou por aqueles que se posicionam contra a influência da Torá Oral na interpretação da Torá, ou na determinação de suas leis. Isso nos vem a mostrar o quanto o entendimento da Torá é importante e o quanto ela ainda se mantém viva nos surpreendendo a cada nova forma de entende-la.

Memahorat Hashabat (מִמָּחֳרַת הַשַּׁבָּת) é uma expressão que aparece na parashá Emor, capítulo 23, que significa a “partir de depois do Shabat”. Esta expressão é usada somente três vezes e apenas aqui neste capítulo.

וְהֵנִיף אֶת הָעֹמֶר לִפְנֵי יְהוָה לִרְצֹנְכֶם, מִמָּחֳרַת הַשַּׁבָּת יְנִיפֶנּוּ הַכֹּהֵן

E agitará o molho (de espigas) diante de Hashem em vosso favor, no dia depois do sábado agitará o sacerdote (versículo 11)

וּסְפַרְתֶּם לָכֶם מִמָּחֳרַת הַשַּׁבָּת, מִיּוֹם הֲבִיאֲכֶם אֶת עֹמֶר הַתְּנוּפָה, שֶׁבַע שַׁבָּתוֹת תְּמִימֹת תִּהְיֶינָה

E contareis para vós a partir de depois do sábado, desde o dia que tiverdes trazido o molho para ser agitado, sete sábados completos haverão (versículo 15)

עַד מִמָּחֳרַת הַשַּׁבָּת הַשְּׁבִיעִת תִּסְפְּרוּ חֲמִשִּׁים יוֹם, וְהִקְרַבְתֶּם מִנְחָה חֲדָשָׁה לַיהוָה

Até o dia seguinte ao sábado sétimo, contareis cinquenta dias, e sacrificareis uma nova oferta a Hashem (versículo 16)

Na época do Segundo Templo o povo judeu estava dividido em seitas onde cada qual defendia sua teologia e condenava a do outro, comportamento típico de seitas principalmente naquela época. Entre elas houve uma com a qual os sábios dedicaram algumas páginas do Talmud, trata-se dos Baitussim. Não se tem muita informação sobre esta seita uma vez que as únicas referências a ela estão nos escritos dos sábios. Mas para alguns historiadores se trata de uma parcela dos tzedukim. Para outros parece ser um movimento independente formado por cohanim e aristocratas que estavam repartidos no público comum[1].

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No Talmud, em Massechet Menachot 65a os baitussim defendem o entendimento da expressão como sendo depois do dia de shabat fazendo referência ao domingo que segue depois do sétimo dia de Pessach, ou seja, depois do fim da festa e poderia ser em qualquer dia entre 22 e 28 de Nissan. Este entendimento implica que a festa de Shavuot seria celebrada entre os dias 11 e 19 do mês de Sivan (cinquenta dias depois). Para esta seita não há qualquer razão para mudar o entendimento do termo “shabat” uma vez que em toda a Torá ele mantém o mesmo significado. Outra justificativa seria que segundo a interpretação dos perushim (os sábios) o dia da apresentação do molho de cevada poderia ocorrer no Shabat o que obrigaria que as pessoas ceifassem a cevada, atividade proibida para este dia.

Não parecia um incômodo para os sábios que a festa de Shavuot não tivesse um dia específico, haja vista que a própria Torá não o determina e que segundo a Halachá esta festa poderia ser celebrada entre os dias 5 e 7 de Sivan[2]. Até porque, diferente das demais festas que tem dia específico e que lhe fazemos referência na amidá com a expressão beyom chag hamatzot, et yom hazikaron, et yom hakipurim e beyom chag hasucot; mas em Shavuot por força de uma discussão entre os sábios quando realmente foi dada a Torá (se no dia 6 ou 7 de Sivan) lembramos esta festa como zman matan toratenu (tempo da entrega de nossa Torá), pois o dia não foi definido com precisão.

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O dia da apresentação do molho de cevada não está especificado na Torá mas sim está assinalado: no princípio da colheita. Esta é a festa agrícola, o dia onde se apresenta as primícias dos grãos e que somente a partir daí é que se pode comer da nova produção. Este dia sabemos que não pode ser antes de Pessach, devido a ordem do texto que regula as festas de forma cronológica, e nem depois do mês de Aviv (Nisan), uma vez que este é o mês em que os grãos estão prontos para o consumo (ver a explicação de Rashi em Vaikrá 2:14). Sendo assim, a apresentação das primícias fica obrigatoriamente determinada a ser entre 16 e 28 de Nissan.

Na Gueramá[3] os sábios não discordaram dos Baitussim quanto ao significado do termo Shabat. Ramban Yochan Ben Zacai a Torá nos estaria dando um exemplo quando o yom tov de Pessach (dia 15 de Nissan) cai em Shabat e a partir daí se contariam cinquenta dias. O mesmo se aplicaria se o yom tov caísse em um dia de semana. Abaye entende que a Torá nos estaria usando de uma alegoria para nos ensinar que se deve contar o omer de duas formas: diária e semanal. Em todas as opiniões apontam que depois do Shabat significa depois do Yom Tov.

No século X os Rishonim voltaram a discutir a questão e defender o entendimento dos sábios em face as argumentações dos karaítas. Estes trouxeram uma terceira possibilidade que seria a de que o dia da agitação do molho de cevada seria no primeiro sábado depois do yom tov de Pessach (dia 15 de Nissan). Ou seja, os karaítas sim aceitam o entendimento dos sábios da Guemará de que a expressão depois do Shabat seria depois do yom tov, mas que obrigatoriamente teria que ser no Shabat. Segundo esta opinião a apresentação do molho de cevada seria entre os dias 16 e 22 de Nissan, e a festa de Shavuot entre os dias 6 e 12 de Sivan.

Então temos aqui três opiniões:

  1. Baitussim: Primeiro Shabat depois de finalizada a Festa de Pessach
  2. Perushim (sábios): Dia seguinte ao dia de Pessach, 16 de Nissan
  3. Karaítas: Primeiro sábado depois do Primeiro dia de Festa de Pessach.

Os sábios entendediam que a festa de Shavuot não dependia da festa de Pessach, mas sim que ela estava relacionada com a Mantan Torá (entrega da Torá no Monte Sinaí). A Torá não especifica qual o dia em que a Torá foi entregue, senão, que o evento ocorreu no terceiro mês[4]. A partir daí os sábios fazem a análise dos textos e encontram indícios que mostram que Shavuot e Matan Torá correspondem ao mesmo dia e à mesma festa. As evidências seriam:

  1. Para ambos os eventos a Torá não estabeleceu um dia específico, mas apenas sinais e pistas.
  2. Que na Festa de Shavuot foi ordenado trazer um pode por sacrifício para expiação dos pecados. Se em Yom Kipur, o dia do Perdão, foram entregues as segundas Tábuas da Lei e também foi ordenado um bode por expiação, em Shavuot entende-se que foram entregues as primeiras Tábuas, haja vista compartilhar do mesmo tipo de sacrifício.
  3. Considerando que o entendimento de bayom hazé em Shemto 19:1 seria Rosh Chodeshe o dia da Entrega da Torá seria em 6 ou 7[5].

Há um pasuk que os sábios tomaram em conta para determinar que o dia da agitação do omer seja obrigatoriamente no dia 16 de Nissan, e é em Sefer Yehoshua:

Estando, pois, os filhos de Israel acampados em Gilgal, celebraram a páscoa no dia catorze do mês, à tarde, nas campinas de Jericó. E, ao outro dia depois da páscoa, nesse mesmo dia, comeram, do fruto da terra, pães ázimos e espigas tostadas. E cessou o maná no dia seguinte, depois que comeram do fruto da terra, e os filhos de Israel não tiveram mais maná; porém, no mesmo ano comeram dos frutos da terra de Canaã. Yehoshua 5:10-12

Vê-se aqui que Am Israel celebra a páscoa em seu tempo e no dia seguinte comem dos grãos da terra de Israel. Não poderiam haver comido dos grãos antes do dia do omer, como está escrito na Torá: “E não comereis pão, nem trigo tostado, nem espigas verdes, até aquele mesmo dia em que trouxerdes a oferta do vosso Deus…[6] o que sugere que a opinião dos Baitussim não seria válida.

Rabi Yehudá Halevi contra argumenta os karaítas explicando no Kuzari[7] que o termo shabat trazido na Torá é um exemplo para explicar a Halachá da Torá e não vai em contra o entendimento da Torá. O texto em nenhum momento traz datas fazendo referências com base em eventos: “primícias da colheita do trigo”, “sete semanas” e “sete sábados” tudo é um exemplo de como se deve ser feita a conta. A Torá toma como exemplo a expressão “desde que a foice começar”[8], se dizemos que este dia é obrigatoriamente Shabat não estaríamos entendendo que a Torá nos estaria permitindo ceifar os campos neste dia? Óbvio que a Torá não nos daria uma orientação que vá contra a guarda do Shabat. Portanto, o termo Shabat no texto é um exemplo.


[1] Eyal Regev, Os Tzedukim e suas leis sobre a religião e a sociedade nos tempos do Segundo Templo

[2] Hoje esta Halachá não se aplica por causa da impossibilidade de santificação dos meses pelo testemunho da Lua Nova. Rosh Hashana 6b.

[3] Menahot 65a

[4] Shemot 19

[5] Shabat 86b Yomá 4b

[6] Vaikrá 23:14

[7] Terceiro Discurso, 41

[8] Devarim 16:9

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Categorias:Exegese, Parashá, Tora Oral

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