Abram ou Melki Tzedek, quem deu o dízimo?


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Creio que no ano passado fui consultado sobre quem haveria recebido o dízimo no verso 20 do capítulo 14 de Bereshit. A pergunta é cabível porque o verso em hebraico não deixa claro quem realmente entregou o dízimo. Na verdade, se o lemos isolado do contexto se crê que Melki Tzedek haveria entregue o dízimo a Abram. Assim traz o verso:  “וּבָרוּךְ אֵל עֶלְיוֹן אֲשֶׁר מִגֵּן צָרֶיךָ בְּיָדֶךָ וַיִּתֶּן לוֹ מַעֲשֵׂר מִכֹּל” (Abençoado seja o Deus Altíssimo o qual proveu tuas necessidades em tuas mãos; e lhe entregou o dízimo de tudo)

Claro que se retirarmos o verso de seu contexto podemos inverter o sentido. Mas antes de se analisar o contexto comecemos pelo verso em si. No período medieval os estudiosos bíblicos exploraram o máximo que podiam dos textos sagrados e para preservar sua compreensão criaram um composto de sinais e anotações. Estes estudiosos foram chamados de massoretas e seu legado foi chamado de messorá. Foram identificados cinco componentes textuais que auxiliam na compreensão do texto: 1. a estrutura consonantal, 2. os elementos paratextuais ou ortografias irregulares, 3. vocalização massorética, 4. acentuação massorética e 5. as anotações massoréticas (esta é a messorá em si).

A acentuação massorética, muito embora seja conhecida como sinais de canto, tem a função de compreensão do texto. Três são suas funções: direcionar a leitura na sinagoga por meio de uma melodia que varia segundo o rito de cada comunidade, enfatizar o caráter emotivo de uma palavra e determinar a relação sistémica das palavras quanto a conjuntividade entre elas.

exemploO texto hebraico original, como as demais línguas semitas, não possui sinais de pontuação. Na verdade, nem mesmo espaço entre as palavras, esta foi talvez a primeira correção ortográfica que provocou uma mudança estrutural nos textos antigos. Os sinais massoréticos existem para atender a necessidade das pontuações gráficas e assim determinar a conjuntividade das palavras, ou seja, a união de uma palavra com outra para formar assim um sentido sintático. Entre os sinais, dois são primordiais a ponto de que se alguém não sabe como cantar a Torá na sinagoga é suficiente que atenda a estes dois sinais e a leitura atenderá os preceitos haláchicos. São eles duas pausas: atnach (no meio do verso) e sof passuk (ao fim de um verso). São importantes porque determinam o final de cada frase ou oração. O que está antes e depois desses sinais PODEM OU NÃO estarem conjuntivamente associados e condicionados.

bereshit 14-20No verso em questão o sinal atnach separa a oração “Abençoado seja o Deus Altíssimo o qual proveu tuas necessidades em tuas mãos” da frase final do verso “e lhe entregou o dízimo de tudo”. Com isso entendemos que cada sentença expressa uma mensagem por si mesma, porém ainda não sabemos qual a relação entre elas, pois isso somente o contexto nos poderá dizer.

Tendo Abram regressado da guerra do Vale do Sidim, região do Mar Morto, onde perseguiu os exércitos de Kedorlaomer até as proximidades de Damasco, vão a seu encontro dois reis: Berá, rei de Sidom, e Melki Tzedek, rei de Shalem. Berá fora derrotado e veio a pedir os cativos de sua cidade abstendo-se de receber os despojos da guerra. Melki Tzedek não participou da guerra mas foi ao encontro de Abram levando pão e vinho para celebrar a vitória. Sendo sacerdote abençoou a Abram depois disso houve a entrega do dízimo. Quem entregou? O conceito de dízimo na Torá é de décima parte da produção, seja animal, seja vegetal a ser ofertada aos sacerdotes ou ao pobre, e também ao próprio produtor. Ou seja, do que se multiplicou em um ano se separa o dízimo o qual era levado ao Templo.

No texto, a única pessoa que teve aumento de riqueza foi Abram então ele seria o único que poderia dar o dízimo. Além do mais o texto é claro em dizer que ele não aceitou receber os despojos pertencentes a Berá, rei de Sidom. E disse: “levando minhas mãos ao Deus Altíssimo dono dos céus e da terra. Não tomarei de tudo que é teu, nem fio nem correia de sapato. Para que não digas: eu entreguei o dízimo a Abram” (verso 21). A questão não era pessoal por ser a riqueza de Berá, porque aceitou de sua riqueza para pagar o soldo de seus soldados. Parece claro que Abram não aceitou por não lhe ser correspondente uma vez não ser ele sacerdote.

Por este motivo e por todo o contexto do dízimo que traz a Torá é entendido que Abram é quem entrega o dízimo a Melki Tzedek. Sendo assim, as duas sentenças do verso 20 não são conjuntivas sendo completamente independentes com sentido próprio.

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Categorias:Curiosidades, Exegese, Parashá, Perguntas e Respostas

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