Seria o Judaísmo uma religião?


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Quando se discute a questão judaica nos deparamos com o termo judaísmo e com o que ele vem a significar. E como tudo no povo judeu, aqui também encontramos divergências. Depois da segunda guerra e das terríveis fatalidades do holocausto se foi cunhada a expressão “Judaism is not a religion” como ferramenta de persuasão para manter no seio da comunidade judaica aqueles, que em virtude dos sofrimentos e traumas pós-holocausto, deixaram de crer na existência de Deus e se afastaram da comunidade em virtude da representatividade religiosa que ela possui. Com o tempo a expressão deixou de ser uma ferramenta de persuasão e passou a ser tomada como uma verdade e hoje muita gente insiste em dizer que o judaísmo não é uma religião e sim o modus vivendi do povo judeu.

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Devemos entender o povo judeu como uma civilização e dentro dele existem características que o definem, como: cultura, filosofia, religião, política, nacionalismo, valores sociais, língua, etc. Cada um dos fatores que caracterizam esta civilização é parte de sua identidade que estão passíveis de mudanças com o tempo. Penso que há um problema em misturar conceitos e tentar abranger no termo judaísmo a identidade nacional quando a intenção inicial é focada na religiosidade. De forma que se invoca a nacionalidade com base em apenas um aspecto que a define.

Escritos antigos trataram do judaísmo como religião e costumes unicamente definidos pela lei judaica. O termo religião no hebraico é dat (דָּת) usando, por exemplo, quando dizemos aos noivos que aceitam se casar conforme “dat Moshe visrael”. Na literatura rabínica o termo dat é muito comum e com frequência o encontramos em referência a aspectos da religião dos judeus. Contudo, essa nova abordagem sobre o judaísmo desvinculando-o do conceito de religião e atribuindo a ele o status de modo de vida de um povo nos sugere a inexistência de religião particular do povo judeu. Dizer que judaísmo não é religião é incoerente por si mesmo frente a todos os rituais, crenças e superstições que o formam como tal.

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Existe na palavra judaísmo uma carga de identidade nacional, haja vista que nada se pode atribuir ao termo que não seja aquilo relacionado ao povo judeu. O termo hebraico yahdut (יַהֲדוּת) significa judaísmo bem como aquilo que é peculiar ao judeu. Encontramos na literatura judaica do tempo do segundo templo, não canonizada, do século II a.c.c. no livro dos Macabeus 2 o termo judaísmo como identificando os que se mantiveram fiéis às tradições e à religião judaica, ou, nas palavras do Dr. Schwartz em sua explicação do termo Ιουδαϊσμός, “que não seguiram no caminho da helenização”[1]. Este dado é importante porque temos nele o uso do termo como identificador do povo judeu em relação a sua cultura e religião ainda no século I-II a.c.c.

Na literatura rabínica medieval encontramos o termo judaísmo se referindo aos costumes ou práticas religiosas. A exemplo podemos trazer Rashi, século XI, que explica a diferença entre um idólatra e um judeu na forma de se amarrar os sapatos e diz: “e a maneira [forma ou procedimento] de Israel no tema [em questão] é outro, haja vista se ter a forma judaica no objeto [analisado, ou na questão]”[2]. Completa Rashi dizendo que o costume de Israel é ser recatado inclusive aqui que não é mandamento senão um costume.

No livro Mitzvot Guedolot (Grandes Mandamentos), século XIII, ao tratar da mitzvá de santificar Hashem, traz o mesmo exemplo no tratado Sanhedrin no qual comentou Rashi e diz que se um não judeu vem ao judeu obriga-lo publicamente (frente a outros 10 judeus) a descumprir um mandamento deve-se entregar sua vida e não descumprir, mesmo que ainda seja ערקתא דמסאנא (a forma como se amarra os sapatos) e o chama de “constume do judaísmo”[3]

Em Tur, coletânea das leis práticas de Rabi Yaakov ben Asher, século XIV, ao tratar de um jovem que foi convertido ainda criança, juntamente com os pais, se ao chegar a idade de 13 anos não se acostumou segundo os costumes judaicos, ele pode optar por não ser judeu e se invalidar sua conversão e ser como um não judeu comum. Mas, uma vez tendo crescido mantem-se nos costumes judaicos já não poderá desfazer sua conversão e se por si só voltar atrás será como um judeu herege[4]. O Shulchan Aruch segue o mesmo uso do termo nesta mesma lei[5].

Rabi Naftali Tzvi Yehudá Berlin, século XVIII, traz o termo em seu comentário sobre a Torá chamado Emek Hadavar em referência a uma mulher que se converteu apenas com a intenção de se casar e ao tornar-se viúva decide por não mais seguir o caminho do judaísmo[6].

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Atribuir ao termo judaísmo tudo aquilo que caracteriza o povo judeu parece esconder um interesse de manter seus correligionários unidos entorno de um ideal específico camuflado dentro da cosmopolização de um termo. Dessa forma um rabino agrega o seu público e o mantém unido entorno do ideal religioso baixo o pretexto de “modo de vida”. Contudo, este modo de vida proposto está moldado unicamente pela halachá e os costumes religiosos, desconsiderando outros aspectos da vida cotidiana do povo judeu como: movimentos políticos, kibutzim, teatro yidish, manutenção do ladino, museus, bares, etc.

A um religioso, insistir na expressão de que judaísmo não é uma religião é dar-se um tiro no próprio pé. Em determinado momento se depara com o problema semântico da expressão em vista a seu discurso de cunho religioso. Quando se tenta construir uma linha de conexão INQUEBRÁVEL entre identidade nacional, religiosidade, cultura, política etc., se perde no discurso ao enfrentar as divergências existentes entre estes aspectos da identidade do judeu que não o desvincula do seu meio.

Há o pensamento de judaísmo não religioso da era pós-moderna que toma o termo no sentido pluralista e humanista de forma que judaísmo como identidade do povo abrange todos os aspectos da vida judaica e não estão necessariamente atrelados às normativas religiosas. Neste aspecto um indivíduo se agrega ao povo por sua compatibilidade cultural e social e não por um ritual qualquer que seja. A pluralidade caracterizaria o judaísmo em todos os seus estágios históricos[7]. Houve um judaísmo definido pela religião em seu tempo e hoje há um judaísmo definido pela pluralidade.

Concluo dizendo que sim existe uma religião judaica e ela se chama judaísmo com todos os seus ritual e leis que lhe são peculiares. Dizer que judaísmo não é uma religião não sua desconexão a este na intenção de construir um discurso persuasivo é falácia, filosoficamente falando. Referir-se ao judaísmo como religião está em pleno acordo com os escritos dos sábios até os tempos atuais. Na religião judaica o ápice da conexão com Deus é a profecia, pois é quando o individuo alcança seu nível mais alto que o permite receber diretamente de Hashem sua vontade. E sobre isso nos escreve Rambam, Rabi Moshê ben Maimônides, que “é um dos alicerces da religião saber que Deus concede a profecia ao homem”[8].


[1] Schiwartz, Daniel; Livro dos Macabeus 2; Yad Ytzhak Bem Zvi, Jerusalem 2004, capítulo 8 verso 1

[2] Rashi, Sanhedrin 74b

[3] Sefer Mitzvot Guedolot, Mandamentos Positivos 5

[4] Tur, Yore Deah 268

[5] Shulchan Aruch, Yore Deah 268

[6] Emek Davar, Devarim 27:19

[7] Malkim Yaakov; Judaism without God Judaism as Culture and Bible as Literature; the Library of Secular Judaism, 2003

[8] Mishnê Torá, Yesodei HaTorá, capítulo 7 lei 1

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