Questionamento Ontológico de Rivká


depressaogravidez

Na parashá anterior, Chaie Sarah, conhecemos Rivká, filha de Betuel. A parte de sua beleza, com relata a Torá que ela era muito bonita (Bereshit 24:16); vemos em Rivká a tendência de ser ativa. Digo ativa porque nota-se que ela protagoniza cenas ou no mínimo atua como coadjuvante, mas nunca se apresenta como uma figurante presente nas sombras. Ela é uma jovem que toma decisões, ela é de iniciativa (perfeita para Itzhak, que dos patriarcas é o mais passivo e queto).

Mas o que quero trazer hoje é o que aprendemos do Pshat, tanto na aplicação exegética como na hermenêutica, sobre o sentimento de Rivká em sua gravidez. Primeiro vejamos como algumas versões brasileiras nos traduzem o pasuk 25:22 que relata a gravidez de Rivka:

E os filhos lutavam dentro dela; então disse: Se assim é, por que sou eu assim? E foi perguntar ao Senhor.

(Almeida Corrigida Fiel)

 

Como as crianças lutassem no seu ventre, ela disse: “Se assim é, por que me acontece isso?” E ela foi consultar o Senhor,

(Bíblia Católica)

 

Os filhos lutavam no ventre dela; e ela disse: Se é assim, porque vivo eu? E foi consultar a Jeová.

(Sociedade Bíblica Britânica)

 

E lutaram os filhos no seu ventre; e ela disse: se é assim, porque desejei isso, eu? E foi consultar o Eterno.

(Torá, a lei de Moisés; Editora Sefer)

 

O texto em hebraico é enigmático e nos relata que a gravidez era complicada pois as os bebês se moviam muito. Assim nos traz o texto hebraico:

וַיִּתְרֹצֲצוּ הַבָּנִים בְּקִרְבָּהּ וַתֹּאמֶר אִם־כֵּן לָמָּה זֶּה אָנֹכִי וַתֵּלֶךְ לִדְרֹשׁ אֶת־יְהוָה׃

 

Ainda que pareça a versão mais sem sentido, a única tradução que trouxe o texto literal sem qualquer influência externa é a Almeida Corrigida Fiel (será por isso a chamaram de fiel? Rs rs rs). Como podemos entender a pergunta de Rivká: Lama zê anoci?

Um entendimento do Pshat seria que tento em vista a frustração de que Rivká era estéril e foi preciso rezar a Hashem para que viesse a engravidar, justamente quando é abençoada as crianças se movem muito o que certamente lhe era incômodo e poderia provocar dores. Então se poderia entender a pergunta da seguinte forma: Por que eu sou assim, que não podia engravidar e quando consigo tenho esse incômodo? Uso a palavra incômodo porque não sabemos ao certo o que ela sentia. De fato o que ela sentia é devido que Hitrozetzu habanim. O verbo lehitrotzetz no hebraico moderno tem o sentido de mover de lugar a lugar, mas no hebraico bíblico se encontra muitas possibilidades. Saadia Gaon nos expõe sete possibilidades de sentidos:

  1. Correr (Bereshit 24:28)
  2. Querer (Yeshaiah 42:1)
  3. Desejo daquilo que lhe é por direito (Vaikrá 26:34)
  4. Espedaçar (Shoftim 9:53)
  5. Tomar (pegar) sem permissão (Shmuel 1 12:3)
  6. Empurrar (Saadia Gaon assim entende este pasuk)
  7. Estrondar como os trovões (Nachum 2:5)

Tendo em vista as possibilidades de entendimento encontradas por Saadia Gaon, ele entende que o sentimento por traz da pergunta de Rivká é: se eu soubesse que era assim, não teria pedido; Rashi segue o mesmo raciocínio.

Nachmânides entende a pergunta de Rivká em um âmbito ontológico onde Rivká se pergunta por que deveria ser ela nessa gravidez diferente das demais mulheres, porque estaria viva, melhor se não vivesse. Rabi Chizkiyah ben Manoach (França, século XIII) mantém o mesmo entendimento de Nachmânides e acrescenta que se fora para sofrer dessa forma, melhor que morresse.

Entende-se que Rivká assume bem o papel de uma mulher cuja função está ficada na maternidade e no direcionamento de Yaakov para ser o primogênito, daí também sua participação na troca dos filhos. Quando ela se vê a ponto de falhar em sua missão se pune e questiona sua existência. Nos mostra isso Rabi Yosef Ibn Caspi (Provence, França, século XIV) ao sugerir equivalência dessa pergunta com a de Bereshit 27:46 que em temor que seu filho Yaakov tome uma das mulheres dos filhos de Chet questiona sua existência.

A vida de Rivká estava focada no êxito de Yaakov. Quando ela viu sua gravidêz difernte das demais mulheres foi perguntar a Hashem o que passava. Ainda que fosse clara a eleição de Yaakov, Rivká se sentia na missão de levar isso a cabo. Quando seus planos estavam prestes a darem errado ela não buscou culpados, assumiu sobre si a responsabilidade e foi buscar solução por si mesma. Determinada, tomou a iniciativa sempre! Rivká, dessa forma, conseguiu o que queria, mesmo que soubesse que isso lhe estava predestinado.

O que aprendemos?

– O quanto se pode entender de uma única palavra

– Que há casos nos quais o entendimento de um pasuk se dá por meio de auxílio textual

– Que uma palavra pode ter muitos sentidos

– Que as traduções podem ser literais como interpretadas



Categorias:Curiosidades, emuná, Exegese, Parashá

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1 reply

  1. Shalom e boa tarde. A participação Rivká foi fundamental para o povo de Israel. Sua decisão em trocar os filhos mudou o rumo da história. Ela foi determinada, sábia! Duas nações dividiam seu ventre: Essav – o perverso, representa o mundo materialista, concreto; Yaacov, representa o mundo espiritual. Yaacov, o fiel seguidor das Tradições, Costumes e a Fé em D-us, herdadas de seu pai Yitschac e de seu avô Abraham. Rivká antecipou e não esperou que o destino do povo Hebreu/Judeu ficasse nas mãos de Essav, o “perverso”. Nós podemos mudar o rumo da história, para o Bem, com decisões simples e concretas respaldadas nos ensinamentos de HaShem.

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