Interpretação Bíblica de Sábios Judeus Medievais e Suas Influências Filosóficas


O povo judeu depois da primeira diáspora viveu em outras terras subjugado ou baixo o governo de outros povos. Aonde chegaram formaram comunidades paralelas à sociedade local. O senso de sobrevivência, o estigma, e a constante desconfiança tanto por parte dos judeus como por parte da população do lugar para onde imigraram, os inibiu de um contato mais amplo o que evitou que tais comunidades do exílio, mesmo existindo por séculos como minoria inserida em uma comunidade maior dominante, pudessem manter suas identidades. Porém este isolamento nunca foi completo e onde quer que os judeus tenham chegado compartilharam de sua cultura e absorveram da cultura local. Essa simbiose resultou no desenvolvimento cultural, comercial e social das comunidades judaicas. Como resultado desse contato modesto, percebemos nas comunidades do exílio traços culturais adquiridos das sociedades dominantes as quais estavam inseridos.

No período medieval as comunidades judaicas ao redor do mediterrâneo estiveram inseridas dentro das culturas cristã e islâmica. Os sábios judeus dessa região puderam adquirir do conhecimento que estava desabrochando graças aos grandes trabalhos de tradução de obras literárias, filosóficas e científicas iniciadas pelos árabes e logo seguida pelos judeus e cristãos no período escolástico (século X). É neste momento que os sábios judeus tiveram contato com a filosofia.

O que estava em moda naquele momento era adquirir novos conhecimentos, discursar e pensar sobre eles. Os sábios judeus também entraram nessa maratona do saber e assim surgiram grandes nomes do pensamento judaico medieval que junto ao status de rabino lhes foram cunhados o título de filósofo. Podemos destacar, dentre outros: Saadia Hagaon, Solomon ibn Gabirol, Abraham ibn Daud, Abraham bar Hiyya, Bahya ibn Paquda, Joseph Albo, Moshe ben Maimon, Levi ben Gershom entre outros. Estes pensadores não apenas foram versados na interpretação das escrituras, nos escritos dos sábios e na lei como também foram conhecedores da filosofia.

Estes sábios conheceram a filosofia grega por meio das traduções ao árabe de parte das obras de Platão e Aristóteles, por escritos de pensadores árabes influenciados por esses filósofos ou pelas traduções ao latim de textos neoplatônicos. Esse conhecimento adquirido influenciou em sua percepção sobre a Torá e sobre os ensinamentos dos sábios do Talmud, e em alguns casos até mesmo na definição da halachá, lei judaica. Esses primeiros sábios foram responsáveis por influenciar toda a cadeia de sábios que vieram depois deles chegando até os nossos dias.

Para fins de análise desse fenômeno selecionei um versículo da Torá e alguns sábios medievais dentre os séculos VI e XIII que interpretaram o versículo e que se pode ver claramente em sua interpretação a influência platônica que receberam. Ao final trarei de forma pontual a doutrina platônica identificada.

O versículo discutido é o de Bereshit 28:13:

וְהִנֵּה יְ-הֹ-וָ-ה נִצָּב עָלָיו וַיֹּאמַר אֲנִי יְהֹוָה אֱלֹהֵי אַבְרָהָם אָבִיךָ וֵאלֹהֵי יִצְחָק הָאָרֶץ אֲשֶׁר אַתָּה שֹׁכֵב עָלֶיהָ לְךָ אֶתְּנֶנָּה וּלְזַרְעֶךָ

E eis que o Senhor estava em cima dela, e disse: Eu sou o Senhor Deus de Abraão teu pai, e o Deus de Isaque; esta terra, em que estás deitado, darei a ti e à tua descendência;

Os sábios buscaram entender a profecia querendo saber o significado da expressão “Deus está em pé sobre” algo – que no hebraico não é cem porcento claro se estaria em pé sobre a escada – quem são os anjos e o que é a escada. E sobre tudo isso entender qual a relação com Yaakov. Primeiramente faço um adendo sobre a conjunção עַל (‘al) para demonstrar o processo exegético na tentativa de se entender um versículo do Tanach.

A conjunção עַל (‘al), na gramática hebraica é conhecida como partícula de relação (milat yahas), tem muitas aplicações diferentes e sua tradução e entendimento depende sempre do contexto em que está sendo aplicada. Seu correspondente na língua portuguesa é sobre, e como no português pode ser aplicada no sentido literal, como por exemplo: chave sobre a mesa (מפתח על השולן) ou no sentido figurado, como por exemplo: livro sobre história (ספר על היסטוריה) dentre outras aplicações figuradas. Também pode se ter outros significados a parte de sobre, como: com, por (através, por meio de) e para (movimento em direção a um destino).

No versículo em questão a preposição é usada duas vezes. Na primeira de forma bem clara está escrito הָאָרֶץ אֲשֶׁר אַתָּה שֹׁכֵב עָלֶיה (a terra a qual você está deitado sobre ela), não nos deixa qualquer dúvida sobre seu sentido e entendimento. Contudo, na expressão נִצָּב עָלָיו o pronome pessoal הוא (hu), ele, foi adicionado à preposição e não está claro a quem se refere (“estar _____ ele“, ele quem?). Como o sentido da conjunção ‘al é entendido segundo o contexto se faz necessário saber a quem se refere o pronome para poder determinar como se deve entender corretamente o versículo. Às vezes é impossível determinar a referência pelo próprio texto por sua ambiguidade, como é neste caso. Aqui o pronome tanto pode estar se referindo à escada como a Yaakov. De forma que se pode entender o texto como estando Deus sobre a escada, sobre Yaakov ou com Yaakov. Em casos assim o comentarista ou tradutor tem que usar recursos externos para entender o versículo ou, como alguns fazem, entender conforme a compreensão instintiva onde estar em pé deve ser logicamente sobre a escada.

Uma das ferramentas para solucionar este tipo de questionamento pode ser o uso da mesma expressão em outros lugares no texto ou no Tanach que possam revelar qual o sentido admitido pela obra. Os comentaristas usaram, além deste recurso, a interpretação teológica para determinar como deve ser entendido o versículo. Suas interpretações podem estar apoiadas em um entendimento paralelo de outro fragmento do Tanach ou nos escritos dos sábios. O apoio a que me refiro é usar esses fragmentos como evidência comprobatória. O que veremos ao final é que essas interpretações são em decorrência de influência platônica.

O Midrash Bereshit Rabá (entre os século IV e VI) relaciona a preposição ‘al a escada, estando Deus sobre ela, apoiando-se no versículo em Shemot (Deut) 19:20 onde diz que Deus desceu sobre Har Sinai. Ou seja, Deus está perto no que se refere à compreensão de sua existência; porém difícil de ser alcançado. Os anjos, explica o Midrash, seriam os profetas, apenas eles podem chegar ao topo da escada. A partir daí se abre uma discussão sobre quem seriam os profetas que foram capazes de subir a Deus e voltar a terra, atribui-se a possibilidade aos patriarcas, a Moshe e a Arão. Também sugere outro entendimento: que os anjos que sobem são os que acompanharam a Yakoov dentro de Canaã; os anjos que descem são os que o acompanharão fora da terra de Canaã. Em outras palavras, os anjos que acompanharam a Yaakov na terra de Canaã não são os mesmos que o acompanharam fora dela sugerindo uma distinção de tratamento em relação a terra de Canaã.

Rabi Toviah ben Eliezer (século XI) começa seu comentário sobre este versículo exaltando a qualidade de profeta de Abraham como sendo aquele que ergueu a escada que conecta o mundo físico com o mundo espiritual; sua honra chega ao trono da glória porquanto foi chamado duas vezes por Deus em uma mesma experiência (Bereshit (Gen) 22:15). Também exalta a Itzhak por junto com seu pai ter “subido ao altar e descido do altar”. Entende rabi Toviah que a escada é o próprio Yaakov, assim, Deus estaria sobre ele. Sua cabeça, de Yaakov, estaria nos céus, a figura de seu rosto estaria talhada no trono da glória (Holin 91b) enquanto que seus pés estariam na terra.

Rabenu Bachai ben Asher ibn Halawa (século XIII) traz que os patriarcas são a carruagem como os querubins são a carruagem de Hashem. E diz de que apesar de que Yaakov seja conhecido como pequeno, os sábios já haviam explicado que entre os anjos querubins há os maiores e os menores (Salmo 104). Acrescenta Rabenu e conforta seu leitor dizendo: “ilumine os olhos do seu coração de que a figura de Yaakov está talhada no trono da glória”. Ou seja, apesar de Yaakov ser menor em relação a seus antecessores devido ao questionamento moral que o acompanha em virtude de seu relacionamento com seu irmão Essav e pelo evento da troca das bênçãos, ainda assim ele pode alcançar o trono da glória.

Rabi Moshe ben Maimon, Maimônides (século XIII) explica no Guia dos Perplexos (Parte 1 capítulo 15) que muito embora a palavra נִצָּב (nitzav) significa literalmente estar em pé, deve ser entendida alegoricamente no sentido de permanência. Compara a aplicação desta palavra neste versículo com outro que diz que a palavra de Deus está “em pé” nos céus (Salmos 119:89). Aqui, e em toda a obra, a atribuição de qualquer característica física a Deus é entendida de forma alegórica. Também relaciona os anjos aos profetas e diz que a função destes é de primeiramente subir ao topo da escada – que em outras lugares de sua obra explica que isso se dá por meio do conhecimento – receber daquele que está permanentemente no topo a instrução e descer para conduzir as pessoas da terra e os ensinar.

Platão (século V aec) em um de seus discursos mais famosos e que mais influenciou os pensadores judeus medievais, A República, trata das qualidades que um filósofo deveria ter para poder alcançar o conhecimento e se aproximar do mundo das ideias. As qualidades morais e o controle de suas inclinações são essenciais para ser um filósofo além de suas habilidades políticas. O filósofo deve ter sua inclinação dominante para a sabedoria e não para os desejos. No pensamento judaico medieval a figura do filósofo de Platão é sobreposta pela figura do profeta tendo como o nível mais alto, e inatingível, os patriarcas e Moisés. No caso de Maimônides, Moisés é colocado como o profeta ideal, mesmo acima dos patriarcas, onde nenhum outro pode alcançar seu nível.

Platão também trata do determinismo geográfico onde ele divide o mundo em três partes e atribui a cada uma delas a influência de uma característica a alma (Norte = desejos, Sul = força e Grécia = sabedoria). Esta relação entre o micro e o macrocosmo também foi utilizada por alguns pensadores judeus medievais, como Rabi Yehudá Halevi, para diferenciar a atmosfera da terra de Israel da atmosfera fora dela, sugerindo, por exemplo, que a profecia só poderia ser concebida dentro de seu território. Nisso o Midrash fez uma alusão ao diferenciar os anjos que acompanharam a Yaakov dentro de Israel dos que o acompanharam fora, como sendo uma diferença na proteção e na revelação.

A exaltação das qualidades do filósofo vemos na doutrina da Alma de Platão em seu diálogo Phaedo. Aqui trata do dualismo da alma e de seu meio determinismo, onde a alma recebe sua natureza e conforme determinado por ela segue sua experiência no mundo físico. A alma de natureza filosófica se elevaria a cada encarnação até chegar a seu nível mais alto de conhecimento e já não mais precisar voltar. Considerando Abraham como aquele que ergueu a escada que conecta o mundo físico com o mundo espiritual se vê alcançado o objetivo do profeta, sendo ele uma alma exaltada. A capacidade de subir e descer do altar revela a facilidade em transcender ao mundo espiritual e voltar dele, experiência do êxtase. Figura talhada no trono da glória é a imagem da perfeição da alma, onde destituída de seu corpo (por isso talhada) tem seu lugar fixo no mundo espiritual (mundo das ideias para Platão) eternamente.

A parábola da biga, ou da carruagem, de Platão foi escrita no diálogo Fedro, neste mito a carruagem representa o intelecto, a razão, que é levada por dois cavalos onde na carruagem dos deuses são dois cavalos brancos, mas, na carruagem do homem é um cavalo branco e outro negro. Os cavalos representam as inclinações onde o homem deve controlá-las para que a carruagem siga seu caminho sem se desviar. Na carruagem divina não há cavalo negro pois o divino não tem a necessidade de controlar suas inclinações. A carruagem dos filósofos deve ser conduzida com destreza para controlar suas inclinações aos desejos e manter dominante as inclinações pela sabedoria. Rabenu Bachai usa da alegoria das carruagens e explica que apesar de Yaakov ser pequeno, ou seja, ter a tendência de ser levado pelo calvo de suas más inclinações, ainda assim pôde conseguir guiar sua carruagem diligentemente e ter sua figura talhada no trono da glória para toda a eternidade.

Subir em conhecimento, receber a revelação da verdade e voltar para conduzir e instruir as pessoas que não podem alcançá-la por elas mesmas é relatado no mito da caverna, diálogo A República. Neste mito, homens estão escravizados e acorrentados em uma caverna e nunca tiveram contato com a luz (conhecimento) e toda sua ideia de verdade provém de sombras geradas por bonecos e utensílios projetadas desde a luz de um fogo manipulados pelos senhores da caverna. Até que em determinado momento um dos prisioneiros se liberta e consegue sair da caverna para ter contato com o mundo real (o mundo das ideias que é permanente e imutável). Depois de conhecer a verdade o homem (figura do filósofo) volta à caverna para ensinar os escravos a verdade adquirida. O profeta assume o lugar do filósofo e tem a obrigação, segundo Maimônides, de voltar a humanidade depois de haver subido ao mundo espiritual para receber as instruções e governar o povo e os ensinar. Maimônides atribui ao profeta funções políticas e educativa assim como feito por Platão.

Podemos ver claramente a influência platônica nas explicações dos sábios judeus a um único versículo da Torá. Vestígios e, em alguns casos, conceitos completos do pensamento grego podem ser identificados nos escritos judaicos. Este é um fenômeno normal que se replica ainda em nossos dias seja em relação à filosofia grega antiga ou em relação a pensadores contemporâneos. O que é importante frisar é que esse fenômeno não diminui ou descaracteriza os ensinamentos desses sábios pois o conhecimento é dinâmico e parte ou de uma experiência empírica ou de um conhecimento já existente. A interpretação bíblica não pode se estagnar e negar em ser renovada pois as necessidades de cada geração exigem respostas atuais que atendam ao modelo de pensamento social vigente. Para isso há que se inspirar nesse modelo para fazer valer a permanência e validade dos escritos bíblicos.



Categorias:Exegese, Guia dos Perplexos, Parashá com Rambam, Pensamento judaico

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