Será que o Guia dos Perplexos foi escrito para você?


“Carta ao Aluno”, cópia da tradução de Shmuel Ibn Tibbon, Oxford, Bodleian Library MS. Canonici Or. 71

Rabi Moshe ben Maimon (1138–1204) se destacou por sua vasta obra literária tanto legislativa judaica como filosófica. Nascido em Córdoba, Espanha, migra ao Marrocos e depois a Israel por força das perseguições árabes. Contudo, foi convidado pela comunidade judaica do Egito para ser seu principal rabino e representá-la frente ao governo egípcio aí se estabelecendo até o dia de sua morte. Durante todo o seu período migratório Rambam escreveu sua obra, mas, no Egito foi onde escreveu seu tratado teológico Guia dos Perplexos famoso pelo seu alto nível filosófico e relevância na literatura judaica até nossos dias.

A obra Guia dos Perplexos foi especialmente escrita para seu aluno preferido, Rabi Yosef ben Yehudá de origem marroquina que viajou ao Egito para estudar com Rambam temas de lei judaica e filosofia. Depois de um longo tempo de estudo Rabi Yosef se separa de seu professor e rabino para assumir, uma comunidade judaica na cidade de Alepo, na Síria. Rambam via em Rabi Yosef um grande potencial e não hesitou em manifestar sua admiração a ponto de escrever seu principal tratado teológico para ele como complemento deus estudos. Podemos conhecer as qualidades de Rabi Yosef ben Yehudá que o fizeram tão especial para Rambam através da “carta ao aluno” que, dada sua importância, foi anexada ao início do Guia dos Perplexos em todas as cópias que se tem conhecimento. Esta carta teria sido envia ao destinatário juntamente com os primeiros capítulos do livro e nela podemos identificar as características que inicialmente um aluno deve ter para estudar o Guia dos Perplexos.

A “carta ao aluno” inicia reconhecendo os esforços de Rabi Yosef ben Yehudá em vir de longe para estudar com Rambam, sua inteligência e seu esforço e desejo em crescer nos estudos, principalmente no que chamou de “temas teóricos”. Rambam fez menção a filosofia teórica em seu livro de lógica e a dividiu em três categorias: de estudo mental (matemática engenharia, astronomia e música), natural (os mundos mineral, vegetal e animal) e teologia . Vemos nesta carta que Rabi Yosef já havia iniciado seus estudos por conta própria e este estudo sem orientação o teria deixado com perplexo em suas profundas dúvidas. Rambam então decide organizar o estudo composto inicialmente por matemática e astronomia, seguido por lógica e temas exotéricos dos livros proféticos. Ao ver o bom desenvolvimento de seu aluno Rambam passa a ensinar temas metafísicos onde se dedicaria aos questionamentos teológicos levantados pelos kalam (teólogos mulçumanos) e se suas respostas são filosoficamente comprovadas.

As qualidades de Rabi Yosef ben Yehudá foram lembradas pelo filho de Rambam nas seguintes palavras: “veio a mim uma carta e emissário do aluno honrado, grande sábio, que foi aluno de meu pai e mestre de bendita memória, Radi Yosef ben Rabi Yehuda bar Shimon era seu nome, estava vivendo em Alepo depois que se separou de meu pai e mestre, de bendita memória, a quem meu pai e mestre, de bendita memória, escreveu Guia dos Perplexos em seu nome. Rabino honrado foi em toda a terra do oriente em sabedoria de Torá e demais sabedorias”.

O Guia dos Perplexos não foi destinado ao público aberto, nem aos iniciantes e nem aos interessados apenas em Torá, ou seja, lei judaica . No final da “carta ao aluno” Rambam deixa claro que o Guia dos Perplexos não era apenas destinado a seu aluno preferido, mas também a todos que são semelhantes a ele, que estudaram os temas sagrados e os filosóficos e se encontraram confusos. O objetivo do livro “Morê Nevuchim”, portanto, segundo o próprio autor, é “esclarecer ao homem religioso, de [alma humilde], que tenha alcançado com sua fé a verdade da Torá, integro em sua religião e em suas virtudes, que seja interessado pelo conhecimento dos filósofos e conhece sua importância, que a razão humana o puxou e o trouxe a tomar o lugar adequado da razão, mas, foi impedido disso pela literalidade da Torá e por entender – ou haver sido explicado a ele – o significado de palavras homônimas, alegóricas ou homonímia [e também polissêmica] e como resultado disse ficou perplexo”.

A perplexidade que trata Maimônides é o estado de dúvida na compreensão textual ao identificar o significado real dos homônimos, palavras com significados diversos; das alegorias, não devendo tomá-las de forma literal; e das polissemias das palavras podem conter significados diferentes dependendo do contexto e que não atendem a essência do ente tratado. Também da dúvida da pessoa religiosa que ao estudar ciências e filosofia e encontra contradições entre estas ciências. Estas contradições colocam o indivíduo em um dilema em ter que escolher entre as deduções racionais do intelecto e as tradições religiosas recebidas dos ensinamentos dos sábios judeus.

Rambam entende que este estado de dúvida se dá por causa de uma tendência natural de se compreender os textos bíblicos e ensinamentos dos sábios judeus de forma superficial sem buscar entender o significado real oculto nesses textos. Para auxiliar a libertar-se da dúvida Maimônides propõe um estudo ordenado e gradual dedicando em seu livro uma sessão lexicográfica para tratar dos significados das palavras e expressões, explicações dos significados das principais e mais importantes alegorias e explicações e significados das profecias.

Uma vez que o Guia dos Perplexos não é destinado a qualquer um, senão aqueles que tenham conhecimento tanto de Torá como de ciências e filosofia, Rambam não escreve sua obra de forma clara, mas prefere por manter conceitos velados de forma também oculta para evitar más compreensões por parte daqueles que sem o preparo e as aptidões iniciais possa tomar conclusões equivocadas de suas palavras. Uma vez que depois de divulgado não se tem controle sobre o uso do livro, “a única forma de filtrar este público é através de uma escrita simbólica e oculta, resumidamente e com contradições intencionais. A característica particular do Guia dos Perplexos permite, ao que parece, superar as debilidades que o tempo e espaço incidem no ensinamento oral, sem revelar coisas a quem não está apto para elas”



Categorias:Curiosidades, Guia dos Perplexos, Pensamento judaico

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